Somos o Nordeste
Hoje ouvi alguém a comentar no ônibus que todos os dias tomo para ir ao trabalho que a “crise moral” pela qual passa o nosso país - e tão bem representada pelos escândalos políticos que pululam na capital federal no presente momento - era um produto de uma certa “nordestização” da política brasileira, calcada, segundo o dono desse discurso improvisado que fui forçado a ouvir, “no costume tão nordestino de corromper e subornar para angariar vantagens”.
Mas, será mesmo que a corrupção no Brasil é uma questão geográfica? Estará ela definida em nosso território pelos imaginários trópicos? Compreendo as raízes da impressão equivocada dos que apontam o Nordeste brasileiro com dedos de acusação, pois muitos dos políticos que se envolveram nos últimos anos nos grandes escândalos de corrupção no poder público eram, em grande parte, de estados daquela região. Mas insisto em afirmar a quem quer que defenda essas idéias que a corrupção em nosso país está se tornando, tristemente, endêmica e existe em qualquer canto desta terra. Diria ainda mais - vejo um corrupto em potencial em cada um de nós, pois estamos entrando, sem nos apercebermos muito bem, em um estado de relativização total do crime e da desonestidade. Para o ser humano, é bem mais fácil dar um “rótulo” a alguém e, assim, ver o outro de forma mais simples e direta, sem o esforço enorme que é tentar se colocar no lugar do semelhante. Por isso é tão mais fácil ver no estado atual de coisas do Brasil um reflexo de uma tal “Nodestização” da vida brasileira, que sinceramente não concordo existir.
Não seria forçado dizer que todos nós, brasileiros, estamos acostumados a cometer pequenos delitos. A esperteza proverbial do brasileiro, sua capacidade (muitas vezes elogiada) de improvizar nada mais são que, na maioria das vezes, um talento inato para não cumprir as regras. Se isso é maravilhoso quando falamos das artes e das ciências, quando a criatividade de nossos patrícios gera beleza e riquezas, tal “qualidade” torna-se destruidora quando a questão é a nossa vida em sociedade. Consideramos normal certos tipos de favorecimento obtidos por meio de conhecimentos nossos, achamos que é inteligência economizar dinheiro comprando produtos contrabandeados ou pirateados no camelô da esquina, furamos a fila e não damos o lugar para o idoso no transporte público, jogamos o lixo no chão e quebramos os orelhões porque a rua e o telefone público são “responsabilidade do governo” - e o que é “público” no Brasil é visto como “coisa de ninguém” - e vemos tudo isso como coisa normal.
Se olharmos bem para nossas próprias atitudes, nós, brasileiros de todos os cantos do país, veremos que o ‘Nordeste’ um tanto imaginário da corrupção generalizada e do desmando sem regramento é aqui mesmo, ao nosso redor. Ao deixarmos de cobrar de nossos parlamentares as ações que foram suas promessa de campanha, ao desistirmos de acompanhar a atuação de nossos governantes, ao considerarmos que a conseqüência natural de uma eleição para um cargo público é o enriquecimento pessoal e o mal uso da máquina estatal, ao calarmos diante da malversação de verbas públicas vista tantas vezes no serviço público, ao considerarmos normal e aceitável a sonegação de impostos e a propina, estamos tendo as mesmas atitudes que o “eleitor nordestino” proverbial que evocamos ao dizer que o Brasil vive um tal processo de “Nordestização”.
Oi Frizerinho,
Este foi seu primeiro texto neste blog seu?
Queria começar do começo, por isso a pergunta.
Gostei deste que li. Gostei do seu blog. Seus textos me farão companhia, às vezes, durante o trabalho, entre um processo e outro, que tenho que ler.
Em vez do café, ‘beberei’ o seu blog (hehehe).
Abraços,
Diogenes