Wednesday, August 20, 2008

O NOVO LOCUTÓRIO

Por problemas técnicos, caro leitor, estou transferindo o LOCUTÓRIO para o seguinte novo endereço:

http://locutoriodofrizero.blogspot.com/

Se possível, mudem o endereço nos seus blogs e sites que remetem a este meu pobre blog…
Peço desculpas pelo inconveniente e imploro: não me deixem só!

Um abraço de gratidão,
Robertson FRIZERO Barros

P.S.: A idéia é aproveitar essa transição para republicar os melhores posts do LOCUTÓRIO nesse novo endereço.  A mudança deve-se à queda da qualidade do serviço prestado pela Blog.com: meus posts agora aparecem sempre desconfigurados e não raro as imagens simplesmente somem… Rendi-me ao Google e a seu facílimo Blogspot… Por isso, este blog foi rebatizado como ARQUIVO MORTO…

Estou aproveitando também para fazer uma “limpeza” no Locutório (Arquivo Morto) e estou simplesmente apagando vários textos ruins que ali se acumulavam, frutos da minha insistência em escrever um texto por dia.  É tempo de revisar e reeditar, preparando-me para novos vôos no mundo editorial.  Os textos selecionados e reeditados no novo Locutório (http://locutoriodofrizero.blogspot.com) serão, assim, apagados aos poucos desse Arquivo Morto até que ele desapareça de vez…

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Wednesday, June 4, 2008

E Teresa sambou…

alt : http://www.youtube.com/v/3daavB5Vxbw&hl=en

 

O dia mostrou-se dos mais ingratos para um espetáculo como aquele: noite de terça-feira fria e úmida como costumava ser os outonos porto-alegrenses de antigamente. O teatro escolhido, talvez o melhor da cidade, tem a desvantagem de ser distante do Centro e de difícil acesso por transporte coletivo. E o resultado foi visto na platéia: o Teatro do SESI não alcançou sequer a lotação total da platéia baixa. Mas nada disso tem relação alguma com o que se viu no palco.

Teresa Salgueiro, a voz dos Madredeus por mais de vinte anos, trouxe ao Brasil novamente este que é o seu primeiro espetáculo solo, Você e Eu. O projeto nasceu durante a última turnê dos Madredeus no país, quando Teresa travou os primeiros contatos com o maestro João Cristal. Ainda como vocalista do grupo, o álbum foi gravado no Brasil em três viagens de Teresa Salgueiro a São Paulo – em janeiro, maio e outubro de 2006 -, com produção de Pedro Ayres Magalhães, fundador do Madredeus e um dos descobridores da cantora quando ela tinha apenas dezessete anos.

Vinte e dois anos depois, a Teresa Salgueiro que se apresentou na noite de 3 de junho de 2008 no palco do Teatro do SESI, em Porto Alegre, é não mais a voz do Madredeus – ainda que tal imagem jamais será de todo apagada -, mas uma voz portuguesa a firmar-se como uma das maiores cantoras do cenário internacional. Não por acaso Você e Eu é um álbum bem sucedido dentro de sua proposta – música brasileira com um delicioso acento jazzístico – e seus espetáculos têm lotado casas de espetáculo mesmo nos países em que não se fala o português. Sua apresentação para uma platéia pouco expressiva diante do tamanho do teatro, com capacidade para quase mil e quinhentas pessoas, não foi menor em entusiasmo ou qualidade: Teresa desfilou todo o repertório do projeto seguinto quase à risca o alinhamento do álbum. Sua voz singular, sempre afinada, imprimiu emoções novas – de arrepiar – em temas mais tristes como Risque (Ary Barroso) e Insensatez (Vicinius de Moraes e Antônio Carlos Jobim). Mas não se pode negar seu talento em escolher os músicos que a conduzem nessa viagem às canções brasileiras dos anos 1930 a 1970: o Septeto João Cristal, graças ao talento de seu maestro e dos arranjos compostos especialmente para esse álbum, mostrou sua qualidade musical não apenas acompanhando Teresa, mas também em números instrumentais generosamente inseridos no espetáculo pela cantora. Um deles, uma longa jam session sobre o tema de Corcovado (Tom Jobim), arrancou aplausos entusiasmados da platéia.

Mas o palco era de Teresa Salgueiro. Sua presença, que já impressionava quando à frente dos Madredeus, ganhou mais graça e leveza em um repertório que parece calar fundo ao coração da intérprete. Criticada por alguns fãs do grupo português quando lançou esse Você e Eu, Teresa sentiu-se na obrigação de explicar em cena as razões afetivas que a levaram a escolher aquelas canções brasileiríssimas para seu primeiro álbum solo. Não precisava – ouví-la entoar Valsinha (Vinicius de Moraes e Chico Buarque) ou Estrada de Sol (Dolores Duran e Tom Jobim), vê-la ensaiar passos de samba na arrebatadora interpretação de Você e Eu (Vinicius de Moraes e Carlos Lyra) – canção, aliás, que ela cantou em público pela primeira vez nos palcos brasileiros durante a turnê de 1995 dos Madredeus – era prova suficiente de que estávamos a ver uma cantora feliz consigo mesma.

No bis, para uma platéia que a aplaudia de pé, Teresa Salgueiro apresentou as “jóias da coroa” – as belíssimas Modinha (Vinicius de Moraes e Tom Jobim), talvez sua mais tocante interpretação da noite, e Se todos fossem iguais a você (Vinicius de Moraes e Tom Jobim), canção cuja letra certamente ecoava os sentimentos daqueles poucos portoalegrenses que presenciaram um espetáculo digno de encher qualquer teatro. Pérolas aos poucos. Sorte dos que enfrentamos o frio e o cansaço de um dia de trabalho para ouvir uma das melhores vozes femininas portuguesas da atualidade.


 

Robertson Frizero Barros

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Tuesday, April 8, 2008

Dias e dias

para Sérgio Freitas, em seu aniversário 

Outro sol amanhã
nascerá em outro dia.

Outro céu surgirá
nas pupilas vazias.

Será outra a manhã
nessa estrada inventada

a cada novo passo
de outra incrível jornada.

E outro sopro de vento
na tua face recente

levará o passado,
engendrará presentes

que amanhã serão
pouco mais que história

levada pelo tempo
às margens da memória

que se renova e vive
a cada passo dado

nascido a cada sol
dentro em ti despertado.

(Robertson Frizero Barros)

Azul e amarelo - fotografia de Sérgio Freitas
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Thursday, December 6, 2007

Narcisismo-leninismo

Chávez e Morales - salvadores da pátria?

Talvez a primeira notável diferença entre os grandes estadistas e os ditadores de ocasião resida na transformação de suas fisionomias em ícones de um regime.  Os grandes estadistas costumam ter seus rostos transformados em camisetas, canecas, bonecos articulados e referências simbólicas depois de sua passagem pelo poder, por conta de seus méritos a frente de governos bem sucedidos ou de relevância histórica.

A mesma lógica não agrada aos ditadores.  Eles usam sua imagem como símbolo desde o início, como forma de marcar uma onipresença que, em suas mentes tortuosas, são sinônimo de permanência no poder.  Não raro, forçam o uso de sua efígie nas repartições públicas, nas representações do poder, em estátuas e painéis grandiloqüentes e, quando avançam em sua dominação, na moeda corrente e na religiosidade sem Deus que cultivam em torno de seu regime.

Invariavelmente, o que se vê é uma reedição das idéias judaicas mais elementares na releitura tacanha desses salvadores da pátria: os revolucionários são o povo eleito, o ditador é o messias aguardado e o país que se formará a partir de sua megalomania, a Canaã prometida.  Assim foi com Mao Tsé Tung, que queimou todo o saber – e pisoteou nos que o sabiam – por acreditar que suas palavras reunidas no livro vermelho condensavam tudo o que o povo precisava saber; assim enxergava Adolph Hitler, que via em uma pretensa raça ariana a salvação não só da Alemanha, mas de toda a humanidade – um conceito que no nazismo não abrangia judeus, negros, ciganos e homossexuais; assim pensam os ditadores latino-americanos que alçaram o poder nos últimos anos pelas vias do voto – que agora parecem desprezar.

A democracia, este mal necessário, é nas mãos desses tiranos apenas uma máscara sob a qual se defendem dos questionamentos do mundo.  E máscaras caem com o tempo.  A de Hugo Chávez caiu há tempos, mas ontem a Venezuela teve mais uma prova do desprezo de Chávez pela democracia: se há três dias ele havia humildemente admitido sua derrota no plebiscito em que pretendia a reeleição eterna, ontem chamou a vitória da oposição de una victória de mierda, desprezando a opinião dos que não aceitaram suas razões falaciosas e afirmando que reenviará suas propostas de mudança da constituição até o final de seu longo mandato.  A máscara de Evo Moráles caiu há alguns dias, quando se aquartelou com os parlamentares de seu partido para promover reformas constitucionais sem a interferência e a participação da oposição – uma atitude muito democrática.

Por que líderes políticos que crêem firmemente serem os messias de um novo tempo irão se importar com a opinião do povo, com o jogo político de opisições e debates, com a mensagem das urnas?  Se a ditadura do proletariado é o único caminho para o bem, que importância haverá os meios para atingí-la?  E, cabe questionar, que importância há na opinião do povo, se eles acreditam que o povo não se reconhece como oprimido?  Democracia e narcisismo-leninismo são incompatíveis.  Não há quem pense na coletividade quando está tão centrado em si mesmo e em suas manias de grandeza.  Hugo Chávez, por exemplo, disse que é soldado e pegará em armas se preciso for, para implementar na Venezuela seu socialismo bolivariano.  Dentro de tão estreita visão de mundo, a urna deve ser um objeto obsoleto e incômodo para esses pobres órfãos latino-americanos da fracassada União Soviética.

A esperança é que o “não” venezuelano seja o indício de esperanças novas no continente, que precisa de renovação, e não de caudilhismo requentado de socialismo.

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Saturday, December 1, 2007

Noite feliz

(Uma sala de estar de uma casa de dois andares. Ao fundo, descendo do andar superior, que não é visível ao público, uma escada com largo corrimão que começa no canto superior direito do fundo do palco e termina ao pé de uma grande janela da sala de estar. Pela janela, enfeitada com cortinas brancas de renda, vê-se a amurada de uma varanda, de onde se ouve o som da chuva e do vento nas árvores. Ao lado da janela, um pequeno ‘hall’ de entrada que vai dar na porta da sala. Do lado esquerdo do palco, uma pequena lareira com um fogo aceso já baixo, à frente da qual está uma poltrona inglesa de veludo vermelho, já meio poído. Ao canto da sala, uma árvore de Natal toscamente enfeitada, com luzes vermelhas ainda piscando, está caída ao chão. Pelas paredes, enfeites natalinos em branco e vermelho, todos muito simples e gastos, enfeitam o ambiente)

LEONORA
(Desce as escadas apressadamente. Pára no último degrau, olha o ambiente ao redor e parece ter medo de pisar no chão. Depois de algum tempo, desce e começa a andar de um lado para outro da sala, aflita. Olha o chão, no qual há pegadas úmidas de um cão. Vai até a árvore de Natal caída; faz menção de erguê-la, mas desiste. Aperta a cabeça entre as mãos em desespero e volta a caminhar pela sala freneticamente. Pára, de repente, em frente à poltrona, onde está sentado PACÍFICO)

Acorde!

(faz menção de tocá-lo, mas recua.) Acorde!

 (para si) Acorde!…

PACÍFICO
(ergue a cabeça, olha em direção à platéia, ainda meio sonolento. Olha os manuscritos de um livro que estão em suas mãos, olha novamente a platéia e só então percebe que LEONORA
está à sua frente)

(calmamente) Que?

LEONORA
(apontando a árvore de Natal)(alto)A árvore!

 (aflita, mas em tom baixo) O cão…

(apontando o chão molhado) Tudo acabado!…

(irrompendo em um choro convulsivo) O Natal!… O cão!… Tudo acabado!…

PACÍFICO
(erguendo-se calmamente)Calma…

(procurando no chão os chinelos)Calma…
 
(abraçando a esposa, que treme convulsivamente enquanto chora) Ele volta…
 
(rindo) O cão.

LEONORA
(fugindo do abraço do esposo) Volta?!?!?

(tira os manuscritos das mãos de PACÍFICO e joga-os na lareira acesa) Que morra!

(lança-se no chão, chorando dramaticamente)

PACÍFICO
(olha o livro na lareira e começa a gargalhar estridentemente. Depois de algum tempo, faz uma pausa e muda a fisionomia repentinamente, mostrando descrédito)

(aponta para o livro e para a mulher) Ah, não!… Não!…
 
(com raiva, vai até o canto da sala, ergue a árvore de Natal caída)

(olhando para o livro que arde na lareira) Tudo destruído…

(vai até a escada e, antes de subir o primeiro degrau, pisa em uma das pegadas úmidas do cão e quase escorrega)
 
(com raiva contida, olhando para o chão e depois para a mulher que continua chorando desesperadamente) 
Que morra!

(sobe as escadas enquanto as luzes se apagam)
 

FIM

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Wednesday, November 7, 2007

O Y da questão

Valesca de Assis considera que ele “já nasceu cronista”.  Luís Augusto Fischer, seu ex-professor de colégio, considera-o um “cronista sereno que nunca esconde e pelo contrário faz questão de expor sua tranqüila humanidade”. O fato é que Rubem Penz, portoalegrense que transitou por carreiras tão díspares quanto a Educação Física e a Publicidade, lançou em 2007 seu primeiro trabalho já com o respaldo da crítica especializada e uma indicação para o Prêmio Açorianos de Melhor Livro de Crônicas. Sua experiência como cronista, contudo, não é novidade: Penz mantém um registro quase diário de crônicas no Rufar dos Tambores e tem seus textos publicados em diversos jornais do Brasil e do exterior. Além disso, ele é músico e dedica-se ao grupo de música instrumental Versão Brasileira.

A pedido do Locutório, Rubem Penz falou um pouco sobre o ofício de escritor e sobre o gênero ao qual dedicou seu primeiro livro, a crônica.




Locutório: Carlos Heitor Cony, um apaixonado pela crônica, declarou que ela ainda é vista, na literatura, como “um gênero tipicamente marginal (…) pois não pertence ao jornalismo, por não conter informação e também fica à margem da literatura, por ser vista como um texto menor”. Para ele, a crônica, mais que em outros gêneros literários, é “o eu se expondo, (…) mesmo que o eu não esteja explícito no texto”. Como você vê a crônica?


Rubem Penz: Bom, em primeiro lugar, marginal é um termo muito libertador, e isso é ótimo. Talvez aí comece a minha escolha pessoal por ser cronista. Fui apresentado para este estilo literário por um pequeno grande livro: O Gigolô das Palavras, de Luis Fernando Verissimo (LFV). Nele, um ensaio teórico da Professora Maria da Glória Bordini explica a liberdade de criação e composição que LFV experimenta, justamente por ser cronista. Outra maravilha nos textos do filho do Erico é o humor: sonhei, um dia, também ser capaz de desfilar ironia e acidez com tanta suavidade que, ao invés de gerar desconforto no leitor, provocasse risos. Então, ainda lá nos anos oitenta, é com Verissimo que a crônica se torna um best seller. Ao somarmos a liberdade de criação, o exercício da ironia e o sucesso, o resultado é: quando eu crescer, quero ser cronista! Comigo foi assim… Com relação à minha visão da crônica na cena das letras, a considero a dona de casa da literatura. O espaço da trivialidade, do cotidiano, dos afazeres básicos e, por isso, comum a todos. Tanto mais competente será o cronista, quanto melhor retratar o prosaico. É então que o leitor se espanta e se rende: o dia-a-dia, aquilo que ele viu, experimentou ou sentiu, transforma-se em literatura. O prazer de escutar alguém me dizer: “ali na tua crônica sou eu”, ou “parece ter falado para mim”, não tem preço.


Vários escritores brasileiros – entre eles o próprio Cony – afirmam que a crônica é um gênero literário tipicamente brasileiro – um substituto nosso ao que em outros países se faz através do artigo ou do ensaio. Você concorda com essa idéia? O que faz com que a crônica seja tão presente no panorama literário do Brasil?


Ser a crônica um produto nacional ou não é uma discussão irrelevante. O que importa é a qualidade que o gênero alcançou em páginas brasileiras. E aí chegamos no axioma do Tostines: vende mais por que é fresquinho ou é fresquinho por que vende mais? Isto é: a crônica brasileira é muito lida por que tem bons escritores, ou tem bons escritores por que é muito lida? Este círculo virtuoso oferece ao leitor uma quantidade de crônicas que não se vê em jornais estrangeiros. E, agora com a internet, de blogs. Só está faltando virar futebol e sermos comprados a peso de ouro pela Itália e Espanha. Nada mal, hein? Mas, em tempo: temos bons ensaístas e articulistas também, que se diferenciam dos cronistas pela especificidade dos temas que abordam.


A crônica é um gênero que floresceu nas mãos de jornalistas como João do Rio, Stanislau Ponte Preta (Sérgio Porto) e Paulo Mendes Campos, entre outros. Você é da área de Publicidade e Propaganda. Em que sentido sua formação afeta seu trabalho como cronista e diferencia-o de seus colegas cronistas que vêm do jornalismo?


Vejo uma linhagem de cronistas nascida do desejo (e da capacidade) de bons jornalistas se libertarem das amarras impostas pela profissão – olha a liberdade aí de novo… Aqui em Porto Alegre, dou como bom exemplo o Nilson Souza, que considero um Paulo Mendes Campos entre nós. A entrada do Nelson Rodrigues, com sua bagagem de cinema e de teatro, começou a abrir o leque de opções na crônica, cujo herdeiro pode-se considerar o Arnaldo Jabor. Quando o multimídia LFV entrou na cena, sendo ele publicitário, jornalista (até astrologia escreveu), cartunista, músico, roteirista etc, liberou geral. Nos anos oitenta, redatores publicitários começaram a trilhar o caminho da crônica. Destaco Martha Medeiros, Ricardo Silvestrin e Cláudia Tajes. Algumas características dos publicitários são o texto ágil, o inusitado na abordagem e a concisão. O pessoal da propaganda costuma ser bem sedutor ao escrever – isso é quase uma imposição de ofício. Aí, mais do que tudo, se diferenciam bastante dos jornalistas. No meu caso, além da redação publicitária, ainda tem o lado músico: nenhuma frase deixa de passar pelo crivo de quem lida com as harmonias e os ritmos. A escola que tive na propaganda e a influência da música me ajudam muito, com toda certeza.


Como é o seu processo criativo? De onde parte sua inspiração para as crônicas?


Existe sempre um catalisador, um gatilho que faz o cronista começar a escrever. Pode ser algo que acabou de ler, que assistiu, que ouviu falar. Pode ser uma emoção nova, um vexame, uma piada. Uma frase solta pode criar verdadeiras teses quando sensibilizam o cronista. Sensibilidade, aliás, é a palavra chave para qualquer manifestação artística. É por isso que não raros artistas sofrem: sentem mais intensamente do que os seus pares. Agora, e aqui tem o lado bem publicitário, a inspiração pode vir do desafio. Funciono muito assim: quando me provoco para escrever sobre determinado tema, me faço capaz. Quem já precisou escrever cartão de Natal temático para empresas de Geometria & Balanceamento, não se acovarda fácil! Hoje em dia, depois de começar a estudar com o escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, tenho me preocupado muito com a forma de escrever. Este é um desafio por vezes maior do que o tema.


Sua produção é bastante intensa, tanto na publicação periódica em seu site Rufar dos Tambores quanto nos diversos jornais nos quais suas crônicas são publicadas, aqui e no exterior. Como é o seu contato com o público? Há diferenças entre os textos que você publica na Internet e os que saem nos jornais? E os leitores, reagem de forma distinta?
 

Minha produção é resultado de uma rotina de trabalho auto-imposta em abril de 2002: no mínimo, uma crônica por semana. Proposta tão séria como um emprego na redação de jornal. Germânica. Afinal, eu precisava saber se o poço das idéias secaria. A internet foi o veículo. Num instante, centenas de pessoas já estavam me lendo e espalhando as crônicas em suas listas pessoais. Em 2004, cursei uma oficina com a escritora Valesca de Assis. Além do grande aprimoramento laboral, ela me apresentou para outros cronistas. Meus textos passaram a ser publicados na sessão de artigos do jornal Zero Hora, de modo esporádico. Quando uma leitora virou repórter do Jornal Comunidade News (EUA), ela levou consigo o Rufar dos Tambores. Agora, outros dois veículos também publicam. Mas nem sempre o texto é adequado a públicos tão diferentes. Nestes casos, escrevo mais de um. O leitor da internet é mais comentarista, mais reativo. Nos jornais, o retorno é pouco.


Você é também um contista de valor, e muitas de suas crônicas publicadas no seu site Rufar dos Tambores namoram com o conto. Há, para você, uma diferença essencial entre os dois gêneros?


Antes de mais nada, eu divido os cronistas em dois grandes grupos: os monocrônicos e os policrônicos (isso é o tema de uma crônica ainda inédita). Os primeiros escrevem sempre da mesma maneira. Os outros, se apropriam do maior número de estilos e formas. Daí, temos a crônica-carta, crônica-anúncio, crônica-conto, crônica-ensaio (que é quase crônica-crônica), crônica-poesia, crônica-paródia, crônica-resenha e tantas outras combinações a se imaginar. A crônica-conto é um dos mais deliciosos casamentos. A diferença entre um conto puro e um conto crônico é, justamente, o tempo (chronos): neste último, o sub-texto estará a serviço de um tema premente, pulsante, crônico. Faço uso desta combinação e de todas as outras. Se já não ficou explícito, reitero: meu objetivo é ser um escritor policrônico. Ou mais: devasso!


O cronista Rubem Penz lê outros cronistas? Como avalia a produção atual do gênero?


Leio cronistas todos os dias. Acompanho a ZH e, ali, me sirvo de todos os 3 textos do gênero – quando não são 4. Cardápio variadíssimo em estilos e opiniões. Sempre que posso, leio os cronistas de outros jornais, também. Na Veja, sempre. Na internet que diminuí bastante: lia blogs e, de um tempo para cá, o faço só de vez em quando. Citando alguns, esquecerei de outros… Em Porto Alegre estamos com uma produção farta no gênero. Mas um pouco acomodada. São poucos os textos arrebatadores. Menos ainda os surpreendentes. Parece mentira, mas o LFV ainda é quem mais me agrada. Não vejo a hora de ele voltar a infernizar o governo.


O Y da questão (Editora Literalis) é seu livro de estréia, e começa sua carreira com uma indicação ao Prêmio Açorianos de Literatura, um dos mais importantes do estado do Rio Grande do Sul. Como surgiu a idéia do livro? Qual sua linha norteadora na escolha dos textos que compõem o livro? Como você recebeu a notícia da indicação ao Açorianos?


Faz tempo que eu olhava para o dilema do ovo e da galinha: o escritor só existe depois do primeiro livro, ou o livro só existe depois de alguém, primeiro, ser escritor. Outra dúvida era se, antes do livro, eu precisava ser cronista de um jornal de grande circulação, ou só chegaria a sê-lo depois de um primeiro livro publicado. Tentei com o Y acomodar a questão. O fato de eu ser finalista do Açorianos já no primeiro título indica um bom acerto de tempo: soube esperar meu texto amadurecer para, só então, nascer como escritor. Minha formação autodidata e para lá de heterodoxa me fazia morrer de medo da academia e da crítica literária… Tenho a esperança de que o livro, agora, seja um facilitador no intento de constar nas páginas da imprensa. As crônicas não foram selecionadas por mim. Pensei que seria melhor entregar para alguém menos comprometido fazer o julgamento. E lá estão as competentes Annete Baldi e Márcia Ivana de Lima e Silva. Outro acerto, sem dúvidas. O resultado foi melhor do que eu poderia alcançar.


Que pontos você destacaria no seu livro para o futuro leitor de “O Y da questão”?


Muito bem, é a hora de tentar vender, não é? Então digamos que, com base na definição de cronista como sendo a dona de casa da literatura, o Y da questão é um convite para ir até a minha casa. À mesa, prometo o trivial bem servido. Sofás confortáveis, cerveja gelada (Suco? Vinho?), música de bom gosto e uma conversa daquelas de fazer amigos de uma vida inteira no primeiro encontro. Franqueza acima de tudo, um pouco de ironia, suavidade. A orelha de Valesca de Assis é o perfumado jardim da entrada. A apresentação de Luís Augusto Fischer faz as honras ao chegar. A arte gráfica de Alex Medeiros se encarrega do conforto aos olhos. O leitor pode escolher varar a madrugada batendo papo, ou, em crônicas espaçadas, sorver o livro como quem dá uma passadinha só para tomar um mate, prometendo voltar amanhã. No fim, pequenas revelações a cada crônica. Esta será a melhor parte da visita: o prazer em conhecer!


Bem, Rubem, estamos na torcida pelo Prêmio Açorianos e agradecemos pela entrevista ao Locutório.  Boa sorte e sucesso!

Muito, muitíssimo grato ao Robertson pela entrevista, e por sua companhia até o final.



O livro de Rubem Penz, O Y da questão, está à venda nas grandes livrarias – inclusive pela Internet; também no site da Editora Literalis e na Feira do Livro de Porto Alegre, na banca da própria editora.
Posted by Frizero in 13:52:38 | Permalink | Comments (1) »

Monday, November 5, 2007

Ajuda




Meiga diz: oi…tudu bem??!?!

CO diz: Em que posso ajudar?

Meiga diz: vc vem sempre por aki??!?!

CO diz: Estou sempre por aqui. Em que posso ajudar?

Meiga diz: nossa…ke legau…… i vc frequenta este siti faz mtu tempu??!?!

CO diz: Data de instalação – Ago 15 2003.

Meiga diz: faz mtu tempu…hein…gatu……………… 2003!!!!!  i u ke vc faz da vida??!?!

CO diz: Posso fazer sugestões para melhorar seu desempenho por aqui.

Meiga diz: eu to loca p melhorah meu disempenhu……………… vc me ajuda msm??!?!

CO diz: Em que posso ajudar?

Meiga diz:nossa…komu vc eh educadeenhu!!!!! faz tempu ke eu naum teclu kom 1 kara taum legau!!!!!

CO diz: Obrigado.  Em que posso ajudar?

Meiga diz: eu to ficanu kom 1 karinha mas axu ke ele tah ficanu kom otra……………… ele vai p balada sozinhu i naum ke + ke eu vah kom ele……  ele diz ke me ama……  u ke vc axa??!?!

CO diz: “Ele está ficando com outra”.  “Ele vai para a balada sozinho.”

Meiga diz:vc axa ke i p balada sozinhu eh u ke??!?!

CO diz: “Ir para a balada sozinho” = “namorar, flertar, azarar, procurar parceiros para relacionamento sexual fortuito”.

Meiga diz: eu sabia!!!!! akele filha da p……………… eu nunca acreditei nessa historia……………… u ke eh issu??!?!

CO diz: “História” = “Ciência que estudo da ação humana ao longo do tempo através concomitantemente do estudo dos processos e dos eventos ocorridos no passado”.

Meiga diz: eh issu aih!!!!! essi kara eh passadu…naum keru + sabe dele!!!!!

CO diz: Em que posso ajudar?

Meiga diz: imagina…vc jah me ajudo pacas!!!!!  olha…vlw tc kontigu…vc eh mtu gracinha…obrigadu pela ajuda!!!!!

CO diz: Obrigado. Em que posso ajudar?

Meiga diz: pena eu naum te 1 gateenhu educadeenhu feitu vc……………… qm sabe a genti naum c fala nu celulah 1 dia dessis aih…ou c kruza nesta sala……………… eu entru sempre kom u nick d meiga…i vc…CO??!?!

CO diz: CO está sempre às ordens. Em que posso ajudar?

Meiga diz: xau gatu …fui!!!!!

Meiga sai da sala.

CO diz: O Corretor Ortográfico Automático agradece e espera sua próxima visita.

Xanda entra na sala.

Xanda diz: i aih…galera!!!!! alguem afim d tc??!?!

CO diz: Em que posso ajudar?

Posted by Frizero in 18:10:47 | Permalink | Comments (5)

Monday, September 24, 2007

O silêncio eloqüente

Marcel MArceau

É uma terrível ironia ter que usar as palavras para falar de Marcel Marceau – ele foi o mestre do silêncio. O ator francês, falecido em 23 de setembro de 2007 aos oitenta e quatro anos, sempre foi um dos mais eloqüentes exemplos de que a arte precisa de muito pouco para ser grandiosa.  Sem o apoio de cenários elaborados, abstendo-se da palavra em uma forma artística – o teatro – na qual ela é, atualmente, por vezes tão mal aproveitada, Marceau encantou gerações e tornou-se um artista reconhecido em todo o mundo.  Ele elevou a mímica ao patamar de arte maior, e sua imagem tornou-se um ícone dessa forma de expressão artística. Ele mesmo um herói da Resistência francesa na Segunda Grande Guerra, seu grito de resistência soou mais alto que inúmeros discursos vazios de seus contemporâneos – não por acaso, uma de suas encenações mais conhecidas tornou-se um símbolo dos jovens que lutaram contra a ditadura de esquerda na famosa Primavera de Praga. Marceau soube, como poucos, levar seu espírito de contestação aos palcos – sem alarde ou pirotecnia, mas gritando em seus gestos e sorrisos o que mil vozes contemporâneas já não mais conseguem fazer com sua mesma verdade, com sua verve e gênio.

O resto é silêncio.

Posted by Frizero in 13:51:32 | Permalink | Comments (1) »

Wednesday, September 19, 2007

[Que assim seja]

'Aurora Boreal - Lea Kleiner, artista chilena

Na mão de Deus,
como em um vale,
dois caminhos se unam
em uma só semente:
que assim seja o nosso amor.

Nos campos sem fronteiras
onde cai a tarde,
numa brisa leve
quando os pássaros
juntos voem
para além do horizonte:
que assim seja o nosso amor.

Que belo é o teu amor
dentro do coração,
pois tu, ao mirar-me,
nunca és
noturna ou distante
e sim acolhedora
como em um remanso.

E se algo há
de noite em teu olhar,
deve ser assim
como de uma noite amiga
cálida como o verão,
singela como uma espiga,
com tuas grandes pupilas
não se abrindo ao nada
e sim ao infinito
e com esse brilho do Senhor
palpitando nas estrelas:
que assim seja o nosso amor…

Luis Felipe Yañez

poeta chileno
[poesia inédita, 2007]
(tradução do espanhol por Robertson Frizero Barros)

Posted by Frizero in 18:55:34 | Permalink | Comments (2)

Tuesday, September 18, 2007

Pedagogia do opressor

Chávez, o 'pai dos pobres' - eles sempre se intitulam assim...As democracias parecem se governar cada uma à sua maneira local.  As ditaduras, ao contrário, são todas iguais.

A paráfrase da frase lapidar de Leo Tolstoi na abertura de Anna Karenina surge diante da mais nova medida anunciada por Hugo Chávez, presidente que se pereniza no poder em seu país, a Venezuela, por conta de uma dominação dos meios políticos e sociais que já não pode ser vista de outro modo a não ser como uma ditadura: Chávez afirmou que todas as escolas venezuelanas, incluindo as da rede privada de ensino, deverão adotar ainda em 2007 o novo currículo por ele desenhado. A idéia do presidente venezuelano é que a “nova Educação bolivariana” ajude a “desenvolver valores de cooperação e solidariedade”.

A reforma na Constituição proposta por Chávez e ainda em fase de aprovação pela Assembléia Nacional da Venezuela – composta exclusivamente por seus partidários – reconhece a existência de instituições de ensino particulares. Contudo, Chávez disse que as escolas que não adotarem o novo sistema educacional socialista serão fechadas. Para ele, o sistema de educação privado na Venezuela é baseado em valores capitalistas e “organizado de maneira a negar Educação para o povo”.

Como auto-intitulado “pai dos pobres”, Chávez declarou que a reforma educacional visa a atender a população mais carente, já que a Educação foi ignorada pelos governos anteriores. Por trás das boas intenções do ditador venezuelano, está um novo currículo que servirá como base de doutrinação dos estudantes.

Hitler: tudo pelas criançasComo outras ditaduras, sejam elas de esquerda ou de direita, Hugo Chávez trabalha com a idéia de formação de seguidores a partir da juventude. Assim funcionava no Uzbequistão, na Alemanha hitlerista, no Brasil dos governos militares, na China maoísta. As reformas educacionais sempre fizeram parte do pacote de medidas dos ditadores, junto com a perseguição aos opositores, ao fechamento da imprensa livre, à sustentação de uma rede de apoio internacional com o uso do dinheiro público – generosamente cedido aos países aliados, mas distribuído à população de forma minguada e recheada de discursos solidários que, no fim das contas, eram materializados em cupons de racionamento e em muita privação. Na Educação, contudo, os efeitos dessa dominação dos ditadores é difícil de mensurar. No Brasil, por exemplo, o uso pelos militares de disciplinas como Educação Moral e Cívica (EMC), Estudos dos Problemas Brasileiros (EPB) ou Organização Social e Política do Brasil (OSPB) para o controle da juventude teve um efeito devastador: hoje, em nosso país, patriotismo virou motivo de galhofa, e só existe durante as competições desportivas de maior expressão, ou quando uma brasileira fica em segundo lugar no Miss Universo

Diz-se muito, hoje em dia, nas falácias do sistema democrático. Afinal, nossas opções de candidatos são oferecidas pelos próprios partidos políticos que, em países como o nosso, parecem contaminados de cabo a rabo. Mas temos uma possibilidade de escolha, e uma imprensa que assume funções de fiscalização diante de um quadro de notória impunidade. Em tudo isso, há o lado bom e o ruim. Contudo, não se pode negar que temos liberdade de discutir nossos problemas abertamente, seja nos jornais, nas ruas ou mesmo nas escolas.

Infelizmente, para os venezuelanos, tais oportunidades estão cada vez mais escassas. E a Educação, atividade basilar na construção de qualquer grande nação, é mais uma vez usada como mero instrumento de perpetuação no poder de um ditador que, como todos os demais de sua estirpe, crê-se o salvador da Pátria.  Depois de construir sua Educação bolivariana, a seguir a cartilha dos ditadores, virão os bustos de Hugo Chávez em bronze, sua estampa nas cédulas de dinheiro e os desfiles cívicos em comemoração ao seu natalício… 

Como todo bom déspota, Chávez construiu para si uma ética muito particular, na qual seu fim – a perenização no poder – justifica os meios.  Para a tristeza dos ditadores, o futuro sempre os desmentiu. 

Posted by Frizero in 12:45:12 | Permalink | Comments (2)