Wednesday, August 20, 2008

O NOVO LOCUTÓRIO

Por problemas técnicos, caro leitor, estou transferindo o LOCUTÓRIO para o seguinte novo endereço:

http://locutoriodofrizero.blogspot.com/

Se possível, mudem o endereço nos seus blogs e sites que remetem a este meu pobre blog…
Peço desculpas pelo inconveniente e imploro: não me deixem só!

Um abraço de gratidão,
Robertson FRIZERO Barros

P.S.: A idéia é aproveitar essa transição para republicar os melhores posts do LOCUTÓRIO nesse novo endereço.  A mudança deve-se à queda da qualidade do serviço prestado pela Blog.com: meus posts agora aparecem sempre desconfigurados e não raro as imagens simplesmente somem… Rendi-me ao Google e a seu facílimo Blogspot… Por isso, este blog foi rebatizado como ARQUIVO MORTO…

Estou aproveitando também para fazer uma “limpeza” no Locutório (Arquivo Morto) e estou simplesmente apagando vários textos ruins que ali se acumulavam, frutos da minha insistência em escrever um texto por dia.  É tempo de revisar e reeditar, preparando-me para novos vôos no mundo editorial.  Os textos selecionados e reeditados no novo Locutório (http://locutoriodofrizero.blogspot.com) serão, assim, apagados aos poucos desse Arquivo Morto até que ele desapareça de vez…

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Wednesday, June 4, 2008

E Teresa sambou…

alt : http://www.youtube.com/v/3daavB5Vxbw&hl=en

 

O dia mostrou-se dos mais ingratos para um espetáculo como aquele: noite de terça-feira fria e úmida como costumava ser os outonos porto-alegrenses de antigamente. O teatro escolhido, talvez o melhor da cidade, tem a desvantagem de ser distante do Centro e de difícil acesso por transporte coletivo. E o resultado foi visto na platéia: o Teatro do SESI não alcançou sequer a lotação total da platéia baixa. Mas nada disso tem relação alguma com o que se viu no palco.

Teresa Salgueiro, a voz dos Madredeus por mais de vinte anos, trouxe ao Brasil novamente este que é o seu primeiro espetáculo solo, Você e Eu. O projeto nasceu durante a última turnê dos Madredeus no país, quando Teresa travou os primeiros contatos com o maestro João Cristal. Ainda como vocalista do grupo, o álbum foi gravado no Brasil em três viagens de Teresa Salgueiro a São Paulo - em janeiro, maio e outubro de 2006 -, com produção de Pedro Ayres Magalhães, fundador do Madredeus e um dos descobridores da cantora quando ela tinha apenas dezessete anos.

Vinte e dois anos depois, a Teresa Salgueiro que se apresentou na noite de 3 de junho de 2008 no palco do Teatro do SESI, em Porto Alegre, é não mais a voz do Madredeus - ainda que tal imagem jamais será de todo apagada -, mas uma voz portuguesa a firmar-se como uma das maiores cantoras do cenário internacional. Não por acaso Você e Eu é um álbum bem sucedido dentro de sua proposta - música brasileira com um delicioso acento jazzístico - e seus espetáculos têm lotado casas de espetáculo mesmo nos países em que não se fala o português. Sua apresentação para uma platéia pouco expressiva diante do tamanho do teatro, com capacidade para quase mil e quinhentas pessoas, não foi menor em entusiasmo ou qualidade: Teresa desfilou todo o repertório do projeto seguinto quase à risca o alinhamento do álbum. Sua voz singular, sempre afinada, imprimiu emoções novas - de arrepiar - em temas mais tristes como Risque (Ary Barroso) e Insensatez (Vicinius de Moraes e Antônio Carlos Jobim). Mas não se pode negar seu talento em escolher os músicos que a conduzem nessa viagem às canções brasileiras dos anos 1930 a 1970: o Septeto João Cristal, graças ao talento de seu maestro e dos arranjos compostos especialmente para esse álbum, mostrou sua qualidade musical não apenas acompanhando Teresa, mas também em números instrumentais generosamente inseridos no espetáculo pela cantora. Um deles, uma longa jam session sobre o tema de Corcovado (Tom Jobim), arrancou aplausos entusiasmados da platéia.

Mas o palco era de Teresa Salgueiro. Sua presença, que já impressionava quando à frente dos Madredeus, ganhou mais graça e leveza em um repertório que parece calar fundo ao coração da intérprete. Criticada por alguns fãs do grupo português quando lançou esse Você e Eu, Teresa sentiu-se na obrigação de explicar em cena as razões afetivas que a levaram a escolher aquelas canções brasileiríssimas para seu primeiro álbum solo. Não precisava - ouví-la entoar Valsinha (Vinicius de Moraes e Chico Buarque) ou Estrada de Sol (Dolores Duran e Tom Jobim), vê-la ensaiar passos de samba na arrebatadora interpretação de Você e Eu (Vinicius de Moraes e Carlos Lyra) - canção, aliás, que ela cantou em público pela primeira vez nos palcos brasileiros durante a turnê de 1995 dos Madredeus - era prova suficiente de que estávamos a ver uma cantora feliz consigo mesma.

No bis, para uma platéia que a aplaudia de pé, Teresa Salgueiro apresentou as “jóias da coroa” - as belíssimas Modinha (Vinicius de Moraes e Tom Jobim), talvez sua mais tocante interpretação da noite, e Se todos fossem iguais a você (Vinicius de Moraes e Tom Jobim), canção cuja letra certamente ecoava os sentimentos daqueles poucos portoalegrenses que presenciaram um espetáculo digno de encher qualquer teatro. Pérolas aos poucos. Sorte dos que enfrentamos o frio e o cansaço de um dia de trabalho para ouvir uma das melhores vozes femininas portuguesas da atualidade.


 

Robertson Frizero Barros

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Monday, May 12, 2008

Passatempos

Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora

(O Relógio - Vinicius de Moraes)










Para a maioria de nós, que vive em função das subidas e descidas do sol em torno da terra, o tempo é algo tão natural quanto a escravidão que vivemos em torno dos ponteiros do relógio.  E não nos damos conta de que quase tudo o que fazemos nesta vida é mero passatempo.

Ainda bebês, deram-nos um chocalho - para os de minha geração - ou uma televisão colorida para a nossa distração, ou seja, um passatempo para aquela criaturinha ainda sem quaisquer interesses na vida além do naná e do leite materno.  De colo em colo fomos conduzidos até a hora do sono e sacudidos de todas as formas para que ela chegasse mais rápido.  Quando, por fim, alçamos à condição de bípedes, as atendentes de creche, as avós ou as babás assumiram a tarefa inglória de fazer-nos passar o tempo enquanto nossos pais ganhavam o pão, o leite e o achocolatado de cada dia.

E a escola?  A raiz quadrada, os afluentes da margem esquerda do Rio Amazonas, o coletivo de borboletas e a geometria molecular são conteúdos pedagógicos criados pelo homem com a clara intenção de ganhar tempo e entreter as crianças enquanto não chega a idade de emergí-las no mercado de trabalho.  Some-se a isso as aulas de inglês, balé, natação, piano e judô, as feiras de ciência e as festas do folclore, as apresentações artísticas de fim de ano e as gincanas escolares e o complô dos adultos em favor de ocupar as crianças torna-se inegável.

Para os anos em que os humanos têm a propensão hormonal à revolta, inventou-se o vestibular, vendido aos quatro cantos como a mais importante conquista de uma vida inteira - ao menos para os que estão passando o tempo no Ensino Médio.  Que haveria de melhor para conter os impulsos revolucionários da juventude que uma grande prova única e sem segunda chamada, cujo conteúdo - ao menos em tese - é todo o conhecimento escolar adquirido ao longo de onze anos de escolaridade?  A crueldade sem limites dos criadores do vestibular é incontestável, mas não há como negar sua eficácia: os que se dedicam para essa prova passam horas e horas a estudar, os que não se preparam devidamente têm o remorso e a culpa de não estarem fazendo o bastante para ajudá-los a passar o tempo.  Há os que não dão a mínima para o vestibular - mas isso não deixa de ser, também, uma forma alternativa de passatempo.

Pegação, namoro, rompimento, flerte, namoro, noivado, traição, rompimento, paquera, namoro, noivado e casamento são elos de uma corrente que vamos arrastando por força da tradição humana do crescei e multiplicai-vos sem que, necessariamente, a força motriz de tudo isso seja o amor ou outro sentimento igualmente nobre: há os que se unem por interesse, por comodidade ou por covardia - e, em todos os casos, o que se quer, em verdade, é uma boa forma de passar o tempo que resta na vida.  O dinheiro do cônjuge garante a folga para as compras e futilidades, a televisão a cabo com quinhentos canais igualmente tediosos.  A presença de um parceiro que não se ama, apenas se tolera, é a cômoda garantia de ter alguém com quem conversar durante os intervalos do programa de televisão.  E os que se juntam por covardia querem apenas dar um tempo nos preconceitos do mundo contra os solteirões incorrigíveis.

E como inventamos soluções para passar o tempo!  Videogames, máquinas caça-níqueis, cigarro, chiclete, Internet, drenagem linfática, aula de cerâmica, cervejinha com os amigos, cinema-pipoca, oficina de empostação de voz,  guerras, downloads de MP3, churrasco de fim-de-semana, chá-de-panela, bicicleta ergométrica, coffee break, palestra motivacional, apresentações em pps, revistas de fofoca!  Quando nos damos conta, o dia foi-se embora e fica em nós a sensação de que o tempo voa e nada de útil fazemos. 

Como a humanidade se pacificaria se assumisse o fato de que a grande missão do homem na face da Terra é passar o tempo!  Comecemos agora essa campanha de conscientização, já que estamos aqui perdendo - ou ganhando? - tempo nesta postagem de blog que não quer ser mais que um passatempo, uma contribuição para que a humanidade atinja seu objetivo.  Ao menos por alguns segundos, até o próximo movimento de teu mouse.

(Robertson Frizero Barros)
Posted by Frizero at 15:24:42 | Permalink | Comments (4)

Tuesday, April 29, 2008

Vozes femininas portuguesas

Para os que não conhecem ainda as boas vozes femininas portuguesas da atualidade, ofereço esta pequena compilação…

A fita cassete? Descobri este site graças à dica de Simone Iwasso em seu sempre interessante LocutórioA capa da fita é um recorte de uma magnífica fotografia do meu amigo lusitano Sérgio Freitas, poeta e fotógrafo de talento. 

Desfrutem da boa música lusitana!

Posted by Frizero at 16:27:41 | Permalink | Comments (4)

Tuesday, April 8, 2008

Dias e dias

para Sérgio Freitas, em seu aniversário 

Outro sol amanhã
nascerá em outro dia.

Outro céu surgirá
nas pupilas vazias.

Será outra a manhã
nessa estrada inventada

a cada novo passo
de outra incrível jornada.

E outro sopro de vento
na tua face recente

levará o passado,
engendrará presentes

que amanhã serão
pouco mais que história

levada pelo tempo
às margens da memória

que se renova e vive
a cada passo dado

nascido a cada sol
dentro em ti despertado.

(Robertson Frizero Barros)

Azul e amarelo - fotografia de Sérgio Freitas
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Sunday, March 23, 2008

Em defesa da honra

'Unheard expression', do pintor norte-americano Mark Stock

Não se falaram o dia inteiro. A briga tola da noite anterior, em pleno restaurante e na frente de seus melhores amigos azedara qualquer possível reconciliação, ao menos por alguns dias. Mas a geladeira estava vazia e a véspera de feriado forçou-lhes uma aproximação para que fossem juntos ao supermercado. Ainda assim, não trocaram palavra. Com a lista de compras nas mãos, o diálogo pareceu-lhes desnecessário.

Subiam as escadas, embora o dia estivesse magnífico. Em outras ocasiões como aquela, talvez aproveitassem para fazer um lanche no caminho de volta ou mesmo estenderiam a tarde de compras com uma sessão de cinema. Mas não conseguiram encontrar espaço para combinar nada além de trancar-se em casa e guardar silêncio até os ânimos se acalmarem.

Mas havia o trabalho. Ambos eram professores e tinham um pequeno negócio em conjunto. Na segunda-feira mesmo iam iniciar uma nova turma do seu curso de História da Arte e ainda não tinham sequer combinado o que fazer. Depois de guardar as compras, já que ela chegou à casa e trancou-se no banheiro, ele resolveu começar sozinho a tarefa monótona de preparar aulas e tomar as providências iniciais para a nova turma de alunos. No escritório, escolheu alguns livros na estante e começou a folheá-los distraidamente. Ao fundo, ouvia o som do chuveiro e os ruídos distantes da rua.

De um livro sobre heráldica caiu o bilhete. Era um pedaço de papel delicado, escrita com letra caprichada de homem culto. Ele leu algumas palavras carinhosas que bastaram para despertar sua raiva armazenada desde o jantar de aniversário de casamento. Ele fechou o livro e com ele golpeou a porta do banheiro. Ela abriu assustada, uma toalha nas mãos a secar os cabelos longos, um roupão a cobrir o corpo esguio. Ele olhou sua sensualidade displicente e encheu-se ainda mais de ódio. Ela continuou olhando-o, aturdida e furiosa pela interrupção. Ele mostrou para ela o livro. A mulher corou.

Aflita, ela correu para o quarto. No parapeito da janela, um vaso austríaco. Era uma peça abominável, com uns passarinhos mal desenhados, presente da sogra que odiava com sinceridade. Quando ganhou o vaso, riu-se tanto que a mãe do esposo quase quebrou a porcelana na sua cabeça. Agora era o filho, que lhe gritava palavras de morte. Ela correu até a janela e ergueu o vaso, ameaçando-o. Ele desejou sua morte e ela fez menção de arremessar o pesado objeto. Desequilibrou-se, caiu.

Da rua, os transeuntes cercaram o corpo inerte da mulher e apontaram para ele, que olhava do alto a adúltera que seu desejo assassinara em pensamento alguns minutos antes. Mas não fora ele, enfim.


Os hílares pássaros a mataram. Ninguém acreditaria em sua inocência. Em seu coração, ele não se importava e preferia, secretamente, que assim o mundo pensasse – melhor assassino que desonrado.

Robertson Frizero Barros
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Wednesday, March 19, 2008

Me, Myself & I

Escrever sobre si mesmo não é um problema - quando se é um Montaigne...Sei que deve ser difícil manter uma coluna semanal em um jornal de grande circulação, sobretudo quando o material é algo tão pouco positivista quanto a literatura.  Mas os cronistas brasileiros - com suas boas, mas raras, exceções - parecem ter embarcado em uma triste egotrip sem volta na qual suas crônicas exercem o papel de diário de bordo.

Aqui no Rio Grande do Sul, estado que ainda se ressente de não ter jornais diários com o peso jornalístico das grandes metrópoles mundiais, um grupo pequeno de cronistas mantém-se no domínio dos espaços de publicação desse tipo de texto que é tão brasileiro, tão nosso, e que desde os áureos tempos de João do Rio e Stanislau Ponte Preta serviu-nos como registro paralelo dos acontecimentos do cotidiano, uma espécie de termômetro bem-humorado do zeitgeist tupiniquim.  Infelizmente, esses cronistas parecem não conseguir mais se desconectar de sua própria realidade.  Seus textos são quase invariavelmente narrativas desinteressantes de seus problemas existenciais ou das pequenas agruras pelas quais passam entre o quarto de dormir e a cadeira da redação do jornal. 

Há poucos dias, uma das mais famosas cronistas do estado contava no jornal de domingo sobre suas dificuldades cotidianas causadas por sua mente esquecida das coisas… Outro, ainda menos inspirado, falou de como se sentiu incomodado em um engarrafamento em Porto Alegre. Tudo sem diferenças de olhar para o que qualquer um escreveria se convocado a expor sua vida em um jornal. Decerto a experiência de um ser humano pode ser de interesse universal - e o termo crônica surgiu para se referir aos relatos de viajantes europeus mundo afora, ou fora do mundo que eles conheciam e imaginavam terminar em um abismo alí nas águas do Atlântico.  Mas mesmo esses relatos pessoais eram de importância crucial para um mundo ocidental que descobria não ser o único cadinho de vida no planeta.  O esquecimento da autora - que ela levianamente chamou de Alzheimer, uma doença muito mais terrível que sua mera desatenção das coisas ao redor - não se encaixava nisso, era apenas um olhar para o próprio umbigo.  E uma mirada boba, sem nenhuma grande sacada criativa. Nem todos são Montaigne e conseguem fazer de suas percepções cotidianas algo de real valor universal.

Resta a saudade dos tempos em que o cronista era, antes de tudo, um literato, um escritor que direcionava seus esforços criativos para o cotidiano ao invés de escrever sobre atemporalidades.  E era justamente isso que o tornava atemporal.  Os cronistas da atualidade - e há exceções louváveis, por sorte, mas que ainda estão distantes de nossos jornais - parecem espelhar, no fundo, os nossos tempos cada vez mais hedonistas e ególatras.  Mas não custa nada torcer para que eles erguessem um pouco a cabeça e olhassem para o mundo ao redor.  Talvez isso fizesse com que eles descobrissem que há coisas mais interessantes para os leitores que a vida exposta do cronista em praça pública. 

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Thursday, December 20, 2007

O caçador de acertos

Cena do filme 'O Caçador de Pipas'Há uma maneira de ser bom novamente. O leitmotif do bem-sucedido romance de estréia de Khaled Hosseini, O Caçador de Pipas (2003), bem poderia resumir os caminhos escolhidos pelos produtores de sua adaptação cinematográfica, que estréia nesses dias que antecedem o Natal nos cinemas dos Estados Unidos. 

O livro, que vendeu mais de oito milhões de cópias em todo o mundo, conta de maneira magistral a história de dois meninos no Afeganistão pré-invasão russa e de como um erro cometido por um deles refletirá por toda a sua vida adulta. Amir, que ainda adolescente imigrará para os Estados Unidos com o pai, fugindo da repressão instalada em seu país em 1979, é filho de uma abastada família Pashtun, sunitas que governavam o Afeganistão antes do regime Talibã.  Seu melhor amigo, filho de um serviçal de seu pai, é Hassan, um Hazara - povo xiita de origem mongol, subjugados na estrutura social afegã.  Uma traição de Amir encherá sua vida do remorso que o fará retornar ao Afeganistão, já adulto, durante o regime Talibã, na esperança de refazer os erros cometidos no passado.  A adaptação cinematográfica respeita o caráter sobejamente humanista do livro e, como Amir, reveste-se de cuidados para não repetir os erros de produções hollywoodianas anteriores, que tratam o estrangeiro com o olhar simplista e esteriotipado que tanto desagrada os povos neles retratados.

O diretor de The Kite Runner, o suíço Marc Forster, já demonstrou seu talento em produções inteligentes como De Volta à Terra do Nunca e Mais Estranho que a Ficção.  Para a aguardada versão cinematográfica de O Caçador de Pipas, ele recusou as pressões dos diretores da Paramount que pretendia transformar o filme em um grande blockbuster: escalou o escocês de origem egípcia Khalid Abdalla para viver o Amir adulto, um papel que o estúdio queria entregar para nomes famosos como Tom Cruise ou Ben Afflect; para os papéis infantis, encontrou nas escolas secundárias afegãs os dois meninos, que efetivamente pertencem às etnias das personagens e agora encantam os críticos norte-americanos como Amir e Hassan.  Impossibilitado de rodar o filme no Afeganistão destruído pelas guerras, ele optou por encontrar locações nas proximidades, no intuito de manter a mesma ambientação original - escolheu a China, em localidades que, na película, confundem os próprios afegãos que trabalharam na produção.

Outro mérito do filme é seu caráter multicultural autêntico.  Os produtores contaram com consultores diversos, que trabalharam em conjunto para tornar as referências culturais as mais fiéis possíveis.  Mais que isso: a grande vitória do diretor foi rodar o filme quase inteiramente em darsi, língua falada no Afeganistão - o próprio autor, Khaled Hosseini, escreveu os diálogos em sua língua natal -, o que é algo arriscado para um filme norte-americano, destinado a um público desacostumado a assistir filmes legendados.  O purismo dos produtores levou o ator principal, Khalid Abdalla, a aprender darsi em um mês de cursos de imersão em Kabul até que pudesse falar a língua como um nativo.  

Cena de 'O Caçador de Pipas'O filme - bem como o romance - tem como principal atrativo seu retrato de um Afeganistão que não se resume aos horrores da guerra televisionada pelos canais de notícias.  Saltam aos olhos do expectador, como do leitor do livro, o cotidiano dos afegãos, as relações interpessoais, os sonhos e os problemas que tornaram aquele povo, sobretudo aos olhos do público norte-americano, mais que a imagem distorcida de vilões da guerra contra o terrorismo.  Trata-se de uma aproximação com a cultura daquela parte do mundo que não se limita ao esperado: vê-se ali o muçulmano fiel, o fanático, o que usa a religião apenas como fachada para exercer o poder - como, via de regra, em todas as religiões e recantos do mundo costuma acontecer.  No caso de O Caçador de Pipas, mostra-se como o povo afegão foi vítima de uma sucessão perversa de lideranças políticas que lvou à destruição do país, que ora tenta se reerguer da catástrofe.  A história do filme e do romance não é omissa em relação à guerra ou à política - mostra, isso sim, como essas dimensões mais amplas da vida humana afetam o homem comum.  São problemas que estão longe de uma solução: o lançamento do filme, programado para agosto nos Estados Unidos, teve que ser adiado para dezembro para que as crianças pudessem terminar o ano letivo em Kabul e ser retiradas do Afeganistão antes de o filme chegar às telas; uma cena em particular, crucial para o filme, poderia acender a ira dos afegãos contra os meninos e a produção decidiu transferir as famílias para os Emirados Árabes Unidos, onde hoje vivem (ainda que não haja no Afeganistão uma sala de cinema sequer, o filme certamente chegará ao país pelas mãos do comércio clandestino - mesmo caminho pelo qual o livro, proibido no Irã e no Afeganistão, tornou-se um best-seller naqueles países a partir de uma tradução pirata para o farsi).

Contra o filme, os críticos estadunidenses apontam o mesmo problema do romance que o originou - uma certa falta de sutileza na história, algo direta e previsível, com um fechamento final cuja conveniente coincidência de vilões lembra o Deus Ex Machina dos dramas de Eurípedes.  Mas o recurso usado pelo escritor estreante não abala em nada a riqueza da história e sua mensagem: sempre há tempo para um recomeço.  O sucesso do filme, cujas qualidades de produção nos permitem antever, pode indicar um novo caminho para os produtores de Hollywood, sempre tão ávidos por fórmulas de boa bilheteria.

Posted by Frizero at 14:45:13 | Permalink | Comments (5)

Thursday, December 6, 2007

Narcisismo-leninismo

Chávez e Morales - salvadores da pátria?

Talvez a primeira notável diferença entre os grandes estadistas e os ditadores de ocasião resida na transformação de suas fisionomias em ícones de um regime.  Os grandes estadistas costumam ter seus rostos transformados em camisetas, canecas, bonecos articulados e referências simbólicas depois de sua passagem pelo poder, por conta de seus méritos a frente de governos bem sucedidos ou de relevância histórica.

A mesma lógica não agrada aos ditadores.  Eles usam sua imagem como símbolo desde o início, como forma de marcar uma onipresença que, em suas mentes tortuosas, são sinônimo de permanência no poder.  Não raro, forçam o uso de sua efígie nas repartições públicas, nas representações do poder, em estátuas e painéis grandiloqüentes e, quando avançam em sua dominação, na moeda corrente e na religiosidade sem Deus que cultivam em torno de seu regime.

Invariavelmente, o que se vê é uma reedição das idéias judaicas mais elementares na releitura tacanha desses salvadores da pátria: os revolucionários são o povo eleito, o ditador é o messias aguardado e o país que se formará a partir de sua megalomania, a Canaã prometida.  Assim foi com Mao Tsé Tung, que queimou todo o saber - e pisoteou nos que o sabiam - por acreditar que suas palavras reunidas no livro vermelho condensavam tudo o que o povo precisava saber; assim enxergava Adolph Hitler, que via em uma pretensa raça ariana a salvação não só da Alemanha, mas de toda a humanidade - um conceito que no nazismo não abrangia judeus, negros, ciganos e homossexuais; assim pensam os ditadores latino-americanos que alçaram o poder nos últimos anos pelas vias do voto - que agora parecem desprezar.

A democracia, este mal necessário, é nas mãos desses tiranos apenas uma máscara sob a qual se defendem dos questionamentos do mundo.  E máscaras caem com o tempo.  A de Hugo Chávez caiu há tempos, mas ontem a Venezuela teve mais uma prova do desprezo de Chávez pela democracia: se há três dias ele havia humildemente admitido sua derrota no plebiscito em que pretendia a reeleição eterna, ontem chamou a vitória da oposição de una victória de mierda, desprezando a opinião dos que não aceitaram suas razões falaciosas e afirmando que reenviará suas propostas de mudança da constituição até o final de seu longo mandato.  A máscara de Evo Moráles caiu há alguns dias, quando se aquartelou com os parlamentares de seu partido para promover reformas constitucionais sem a interferência e a participação da oposição - uma atitude muito democrática.

Por que líderes políticos que crêem firmemente serem os messias de um novo tempo irão se importar com a opinião do povo, com o jogo político de opisições e debates, com a mensagem das urnas?  Se a ditadura do proletariado é o único caminho para o bem, que importância haverá os meios para atingí-la?  E, cabe questionar, que importância há na opinião do povo, se eles acreditam que o povo não se reconhece como oprimido?  Democracia e narcisismo-leninismo são incompatíveis.  Não há quem pense na coletividade quando está tão centrado em si mesmo e em suas manias de grandeza.  Hugo Chávez, por exemplo, disse que é soldado e pegará em armas se preciso for, para implementar na Venezuela seu socialismo bolivariano.  Dentro de tão estreita visão de mundo, a urna deve ser um objeto obsoleto e incômodo para esses pobres órfãos latino-americanos da fracassada União Soviética.

A esperança é que o “não” venezuelano seja o indício de esperanças novas no continente, que precisa de renovação, e não de caudilhismo requentado de socialismo.

Posted by Frizero at 13:58:26 | Permalink | Comments (3)

Saturday, December 1, 2007

Noite feliz

(Uma sala de estar de uma casa de dois andares. Ao fundo, descendo do andar superior, que não é visível ao público, uma escada com largo corrimão que começa no canto superior direito do fundo do palco e termina ao pé de uma grande janela da sala de estar. Pela janela, enfeitada com cortinas brancas de renda, vê-se a amurada de uma varanda, de onde se ouve o som da chuva e do vento nas árvores. Ao lado da janela, um pequeno ‘hall’ de entrada que vai dar na porta da sala. Do lado esquerdo do palco, uma pequena lareira com um fogo aceso já baixo, à frente da qual está uma poltrona inglesa de veludo vermelho, já meio poído. Ao canto da sala, uma árvore de Natal toscamente enfeitada, com luzes vermelhas ainda piscando, está caída ao chão. Pelas paredes, enfeites natalinos em branco e vermelho, todos muito simples e gastos, enfeitam o ambiente)

LEONORA
(Desce as escadas apressadamente. Pára no último degrau, olha o ambiente ao redor e parece ter medo de pisar no chão. Depois de algum tempo, desce e começa a andar de um lado para outro da sala, aflita. Olha o chão, no qual há pegadas úmidas de um cão. Vai até a árvore de Natal caída; faz menção de erguê-la, mas desiste. Aperta a cabeça entre as mãos em desespero e volta a caminhar pela sala freneticamente. Pára, de repente, em frente à poltrona, onde está sentado PACÍFICO)

Acorde!

(faz menção de tocá-lo, mas recua.) Acorde!

 (para si) Acorde!…

PACÍFICO
(ergue a cabeça, olha em direção à platéia, ainda meio sonolento. Olha os manuscritos de um livro que estão em suas mãos, olha novamente a platéia e só então percebe que LEONORA
está à sua frente)

(calmamente) Que?

LEONORA
(apontando a árvore de Natal)(alto)A árvore!

 (aflita, mas em tom baixo) O cão…

(apontando o chão molhado) Tudo acabado!…

(irrompendo em um choro convulsivo) O Natal!… O cão!… Tudo acabado!…

PACÍFICO
(erguendo-se calmamente)Calma…

(procurando no chão os chinelos)Calma…
 
(abraçando a esposa, que treme convulsivamente enquanto chora) Ele volta…
 
(rindo) O cão.

LEONORA
(fugindo do abraço do esposo) Volta?!?!?

(tira os manuscritos das mãos de PACÍFICO e joga-os na lareira acesa) Que morra!

(lança-se no chão, chorando dramaticamente)

PACÍFICO
(olha o livro na lareira e começa a gargalhar estridentemente. Depois de algum tempo, faz uma pausa e muda a fisionomia repentinamente, mostrando descrédito)

(aponta para o livro e para a mulher) Ah, não!… Não!…
 
(com raiva, vai até o canto da sala, ergue a árvore de Natal caída)

(olhando para o livro que arde na lareira) Tudo destruído…

(vai até a escada e, antes de subir o primeiro degrau, pisa em uma das pegadas úmidas do cão e quase escorrega)
 
(com raiva contida, olhando para o chão e depois para a mulher que continua chorando desesperadamente) 
Que morra!

(sobe as escadas enquanto as luzes se apagam)
 

FIM

Posted by Frizero at 21:33:20 | Permalink | Comments (1) »