Quarta-feira, 20 de Agosto de 2008

O NOVO LOCUTÓRIO

Por problemas técnicos, caro leitor, estou transferindo o LOCUTÓRIO para o seguinte novo endereço:

http://locutoriodofrizero.blogspot.com/

Se possível, mudem o endereço nos seus blogs e sites que remetem a este meu pobre blog...
Peço desculpas pelo inconveniente e imploro: não me deixem só!


Um abraço de gratidão,
Robertson FRIZERO Barros


P.S.: A idéia é aproveitar essa transição para republicar os melhores posts do LOCUTÓRIO nesse novo endereço.  A mudança deve-se à queda da qualidade do serviço prestado pela Blog.com: meus posts agora aparecem sempre desconfigurados e não raro as imagens simplesmente somem... Rendi-me ao Google e a seu facílimo Blogspot... Por isso, este blog foi rebatizado como ARQUIVO MORTO...

Estou aproveitando também para fazer uma "limpeza" no Locutório (Arquivo Morto) e estou simplesmente apagando vários textos ruins que ali se acumulavam, frutos da minha insistência em escrever um texto por dia.  É tempo de revisar e reeditar, preparando-me para novos vôos no mundo editorial.  Os textos selecionados e reeditados no novo Locutório (http://locutoriodofrizero.blogspot.com) serão, assim, apagados aos poucos desse Arquivo Morto até que ele desapareça de vez...

Escrito por Frizero em 08:54:33 | Link permanente | Comments (0) |

Terça-feira, 15 de Julho de 2008

A página em branco

As idéias borbulhavam ao ponto dele não mais conseguir escrever uma linha sequer.  Tudo era razão para desviar-se da promessa que fizera a ele mesmo, a de produzir um texto por dia, de manter a mente voltada para a literatura.  A viagem de férias iminente, os problemas no trabalho, os dias atarefados e aqueles sem absolutamente nada o que fazer, para cada momento ele encontrava motivos para não se sentar à frente do computador e enfrentar a vasta brancura do processador de textos a gritar-lhe: preenche-me de bits ou devoro-te.  Migrou de volta para o papel e a caneta: nada. E eram novelas, contos, poesia, cartas de repúdio, crônicas divertidas - todos abandonados nos porões escuros de seu bloqueio ou preguiça.

Um dia cansou-se, o peso na consciência de escritor amador tornou-se insuportável e resolveu escrever umas linhas sobre o seu infortúnio.  Chamou aquela tolice de "semi-conto".

                                                                     Robertson Frizero Barros
Escrito por Frizero em 09:35:09 | Link permanente | Comments (0) |

Quarta-feira, 04 de Junho de 2008

E Teresa sambou...

alt : http://www.youtube.com/v/3daavB5Vxbw&hl=en

 

O dia mostrou-se dos mais ingratos para um espetáculo como aquele: noite de terça-feira fria e úmida como costumava ser os outonos porto-alegrenses de antigamente. O teatro escolhido, talvez o melhor da cidade, tem a desvantagem de ser distante do Centro e de difícil acesso por transporte coletivo. E o resultado foi visto na platéia: o Teatro do SESI não alcançou sequer a lotação total da platéia baixa. Mas nada disso tem relação alguma com o que se viu no palco.


Teresa Salgueiro, a voz dos Madredeus por mais de vinte anos, trouxe ao Brasil novamente este que é o seu primeiro espetáculo solo, Você e Eu. O projeto nasceu durante a última turnê dos Madredeus no país, quando Teresa travou os primeiros contatos com o maestro João Cristal. Ainda como vocalista do grupo, o álbum foi gravado no Brasil em três viagens de Teresa Salgueiro a São Paulo - em janeiro, maio e outubro de 2006 -, com produção de Pedro Ayres Magalhães, fundador do Madredeus e um dos descobridores da cantora quando ela tinha apenas dezessete anos.

Vinte e dois anos depois, a Teresa Salgueiro que se apresentou na noite de 3 de junho de 2008 no palco do Teatro do SESI, em Porto Alegre, é não mais a voz do Madredeus - ainda que tal imagem jamais será de todo apagada -, mas uma voz portuguesa a firmar-se como uma das maiores cantoras do cenário internacional. Não por acaso Você e Eu é um álbum bem sucedido dentro de sua proposta - música brasileira com um delicioso acento jazzístico - e seus espetáculos têm lotado casas de espetáculo mesmo nos países em que não se fala o português. Sua apresentação para uma platéia pouco expressiva diante do tamanho do teatro, com capacidade para quase mil e quinhentas pessoas, não foi menor em entusiasmo ou qualidade: Teresa desfilou todo o repertório do projeto seguinto quase à risca o alinhamento do álbum. Sua voz singular, sempre afinada, imprimiu emoções novas - de arrepiar - em temas mais tristes como Risque (Ary Barroso) e Insensatez (Vicinius de Moraes e Antônio Carlos Jobim). Mas não se pode negar seu talento em escolher os músicos que a conduzem nessa viagem às canções brasileiras dos anos 1930 a 1970: o Septeto João Cristal, graças ao talento de seu maestro e dos arranjos compostos especialmente para esse álbum, mostrou sua qualidade musical não apenas acompanhando Teresa, mas também em números instrumentais generosamente inseridos no espetáculo pela cantora. Um deles, uma longa jam session sobre o tema de Corcovado (Tom Jobim), arrancou aplausos entusiasmados da platéia.


Mas o palco era de Teresa Salgueiro. Sua presença, que já impressionava quando à frente dos Madredeus, ganhou mais graça e leveza em um repertório que parece calar fundo ao coração da intérprete. Criticada por alguns fãs do grupo português quando lançou esse Você e Eu, Teresa sentiu-se na obrigação de explicar em cena as razões afetivas que a levaram a escolher aquelas canções brasileiríssimas para seu primeiro álbum solo. Não precisava - ouví-la entoar Valsinha (Vinicius de Moraes e Chico Buarque) ou Estrada de Sol (Dolores Duran e Tom Jobim), vê-la ensaiar passos de samba na arrebatadora interpretação de Você e Eu (Vinicius de Moraes e Carlos Lyra) - canção, aliás, que ela cantou em público pela primeira vez nos palcos brasileiros durante a turnê de 1995 dos Madredeus - era prova suficiente de que estávamos a ver uma cantora feliz consigo mesma.


No bis, para uma platéia que a aplaudia de pé, Teresa Salgueiro apresentou as "jóias da coroa" - as belíssimas Modinha (Vinicius de Moraes e Tom Jobim), talvez sua mais tocante interpretação da noite, e Se todos fossem iguais a você (Vinicius de Moraes e Tom Jobim), canção cuja letra certamente ecoava os sentimentos daqueles poucos portoalegrenses que presenciaram um espetáculo digno de encher qualquer teatro. Pérolas aos poucos. Sorte dos que enfrentamos o frio e o cansaço de um dia de trabalho para ouvir uma das melhores vozes femininas portuguesas da atualidade.


 

Robertson Frizero Barros
Escrito por Frizero em 08:43:24 | Link permanente | Comments (0) |

Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

Passatempos

Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora

(O Relógio - Vinicius de Moraes)











Para a maioria de nós, que vive em função das subidas e descidas do sol em torno da terra, o tempo é algo tão natural quanto a escravidão que vivemos em torno dos ponteiros do relógio.  E não nos damos conta de que quase tudo o que fazemos nesta vida é mero passatempo.

Ainda bebês, deram-nos um chocalho - para os de minha geração - ou uma televisão colorida para a nossa distração, ou seja, um passatempo para aquela criaturinha ainda sem quaisquer interesses na vida além do naná e do leite materno.  De colo em colo fomos conduzidos até a hora do sono e sacudidos de todas as formas para que ela chegasse mais rápido.  Quando, por fim, alçamos à condição de bípedes, as atendentes de creche, as avós ou as babás assumiram a tarefa inglória de fazer-nos passar o tempo enquanto nossos pais ganhavam o pão, o leite e o achocolatado de cada dia.

E a escola?  A raiz quadrada, os afluentes da margem esquerda do Rio Amazonas, o coletivo de borboletas e a geometria molecular são conteúdos pedagógicos criados pelo homem com a clara intenção de ganhar tempo e entreter as crianças enquanto não chega a idade de emergí-las no mercado de trabalho.  Some-se a isso as aulas de inglês, balé, natação, piano e judô, as feiras de ciência e as festas do folclore, as apresentações artísticas de fim de ano e as gincanas escolares e o complô dos adultos em favor de ocupar as crianças torna-se inegável.

Para os anos em que os humanos têm a propensão hormonal à revolta, inventou-se o vestibular, vendido aos quatro cantos como a mais importante conquista de uma vida inteira - ao menos para os que estão passando o tempo no Ensino Médio.  Que haveria de melhor para conter os impulsos revolucionários da juventude que uma grande prova única e sem segunda chamada, cujo conteúdo - ao menos em tese - é todo o conhecimento escolar adquirido ao longo de onze anos de escolaridade?  A crueldade sem limites dos criadores do vestibular é incontestável, mas não há como negar sua eficácia: os que se dedicam para essa prova passam horas e horas a estudar, os que não se preparam devidamente têm o remorso e a culpa de não estarem fazendo o bastante para ajudá-los a passar o tempo.  Há os que não dão a mínima para o vestibular - mas isso não deixa de ser, também, uma forma alternativa de passatempo.

Pegação, namoro, rompimento, flerte, namoro, noivado, traição, rompimento, paquera, namoro, noivado e casamento são elos de uma corrente que vamos arrastando por força da tradição humana do crescei e multiplicai-vos sem que, necessariamente, a força motriz de tudo isso seja o amor ou outro sentimento igualmente nobre: há os que se unem por interesse, por comodidade ou por covardia - e, em todos os casos, o que se quer, em verdade, é uma boa forma de passar o tempo que resta na vida.  O dinheiro do cônjuge garante a folga para as compras e futilidades, a televisão a cabo com quinhentos canais igualmente tediosos.  A presença de um parceiro que não se ama, apenas se tolera, é a cômoda garantia de ter alguém com quem conversar durante os intervalos do programa de televisão.  E os que se juntam por covardia querem apenas dar um tempo nos preconceitos do mundo contra os solteirões incorrigíveis.

E como inventamos soluções para passar o tempo!  Videogames, máquinas caça-níqueis, cigarro, chiclete, Internet, drenagem linfática, aula de cerâmica, cervejinha com os amigos, cinema-pipoca, oficina de empostação de voz,  guerras, downloads de MP3, churrasco de fim-de-semana, chá-de-panela, bicicleta ergométrica, coffee break, palestra motivacional, apresentações em pps, revistas de fofoca!  Quando nos damos conta, o dia foi-se embora e fica em nós a sensação de que o tempo voa e nada de útil fazemos. 

Como a humanidade se pacificaria se assumisse o fato de que a grande missão do homem na face da Terra é passar o tempo!  Comecemos agora essa campanha de conscientização, já que estamos aqui perdendo - ou ganhando? - tempo nesta postagem de blog que não quer ser mais que um passatempo, uma contribuição para que a humanidade atinja seu objetivo.  Ao menos por alguns segundos, até o próximo movimento de teu mouse.

(Robertson Frizero Barros)
Escrito por Frizero em 11:24:42 | Link permanente | Comments (2) |

Sexta-feira, 09 de Maio de 2008

Habitat

 


Os americanos sempre começam uma palestra com uma piada, por mais sério que seja o tema.  O doutor Fernando José Menna Barreto Selbach aprendera isso nos quatro anos de doutorado em Chicago e adotara a estratégia - a platéia relaxava, ele angariava a simpatia dos presentes e as tensões desapareciam no ar como por encanto.  Os gracejos do doutor Fernando José Menna Barreto Selbach iam de pequenas historietas envolvendo a rotina familiar, as gracinhas do filho menor, as tiradas geniais da esposa, até referências espirituosas sobre os escândalos políticos do momento ou as mais recentes fofocas das celebridades.  Não raro, ele inventava as situações que melhor se encaixariam em seus planejamentos para este ou aquele público.  Pelo inusitado de ouvir histórias tão divertidas no início de uma fala sobre avanços nas pesquisas sobre comportamento e genética, proferida pela maior autoridade do assunto no estado, a audiência rendeu-se às gargalhadas ao humor insuspeitado do doutor Fernando José Menna Barreto Selbach.  Menos ela.

A primeira vez que percebera seu rosto foi ao subir ao palco do auditório.  Entre tantos catedráticos em seus ternos escuros na primeira fila, estava a moça de braços expostos em roupas de uma casualidade petulante.  Os olhos verdes, realçados por contornos de lápis preto desenhados com cuidado, seguiam-no em desafio.  O doutor Fernando José Menna Barreto Selbach sentou-se à mesa depois de cumprimentar o presidente da Associação Médica e olhou para a moça.  Ela mantinha o olhar fixo nele, sem que qualquer músculo da face indicasse seus sentimentos. 

Começou contando da vez em que uma senhora idosa pediu-lhe que curasse seu filho da falta de vontade em arrumar um emprego. A menina de braços alvos, sentada bem próxima ao púlpito, não esboçou um sorriso sequer. O doutor Fernando José Menna Barreto sentiu-se incomodado, mas prosseguiu.  Entre modelos de estruturação genética e comparativos diversos dos dados de sua pesquisa, incluia analogias graciosas entre a genética e a vida acadêmica, o tráfego, a vida dos cantores de rap.  Explicou a vida tumultuada de algumas celebridades através das mais recentes descobertas do genmoa humano e gargalhadas explodiram na platéia.  Ela seguia impassível, olhando-o nos olhos com calculada frieza.

O incômodo aumentou quando o Doutor Fernando José percebeu na jovem certos sinais de incredulidade.  Conforme ele avançava nas lâminas preparadas com cuidado, ela levava a mão ao queixo ou ajeitava os cabelos na nuca como a disfarçar uma risada contida. Haveria algum erro em suas hipóteses, ou uma tolice qualquer, muito primária, teria escapado em meio ao seu derramar de teorias avançadas, pensou.  Aos poucos, uma aflição insuspeitada invadiu-o - ela estava a tramar algo, talvez uma daquelas perguntas capazes de destruir uma reputação.  Viu nos olhos verdes e brilhantes da moça um laivo de crueldade, de quem espera o momento dos debates com ansiosa sede de sangue.  E gaguejou - muito - por duas vezes - ao explicar a grande descoberta - a razão de sua pesquisa.  Ela abriu o celular e digitou um pequeno texto, ele calculou pela velocidade irritada dos dedos no teclado luminoso.

Uma jovem esguia e insossa trouxe-lhe um bilhete.  Fernando José abriu com o coração aos pulsos, mas era apenas um aviso de que ele tinha mais cinco minutos.  Cinco minutos!  Uma eternidade, o alívio de terminar a torturante visão de sua carrasca e o medo de suas perguntas tortuosas, em cinco, míseros minutos!

Os aplausos foram calorosos.  Ela manteve as mãos repousadas sobre os joelhos, sem tirar os olhos dele.  Nenhum sorriso ou comentário para o senhor que estava a seu lado e cochichava-lhe algo que a fez acenar positivamente com a cabeça.  O microfone circulou pela platéia - as perguntas, tediosas, serviam apenas para os participantes da conferência exalarem algum saber.  A moça de olhos verdes nada perguntou.  Fernando respirou aliviado.

O coquetel foi seu momento de triunfo.  Recebeu convites, elogios, tapinhas nas costas e teve que ouvir os comentários delongados e sem conteúdo de muitos.  Mas Fernando não tirava os olhos da moça esquecida junto a um estande.  Aproximou-se dela, pediu licença para folhear alguns livros na bancada em frente, sorriu-lhe.  Ela investigou seu rosto com a mesma distância calculada do auditório.  Sorriu sem convicção, para agradá-lo.  Para o Doutor Fernando José Mena Barreto Selbach, era a chance de decifrá-la, de adentrar em seu mundo.  Perguntou-lhe se gostara da palestra:

- Não sei.  O senhor é meu tipo, mas é bem mais bonito de boca fechada.

(Robertson Frizero Barros)
Escrito por Frizero em 09:55:22 | Link permanente | Comments (0) |

Terça-feira, 29 de Abril de 2008

Vozes femininas portuguesas


Para os que não conhecem ainda as boas vozes femininas portuguesas da atualidade, ofereço esta pequena compilação...

A fita cassete? Descobri este
site graças à dica de Simone Iwasso em seu sempre interessante LocutórioA capa da fita é um recorte de uma magnífica fotografia do meu amigo lusitano Sérgio Freitas, poeta e fotógrafo de talento. 

Desfrutem da boa música lusitana!

Escrito por Frizero em 12:27:41 | Link permanente | Comments (2) |

Terça-feira, 08 de Abril de 2008

Dias e dias

para Sérgio Freitas, em seu aniversário 


Outro sol amanhã
nascerá em outro dia.


Outro céu surgirá
nas pupilas vazias.


Será outra a manhã
nessa estrada inventada


a cada novo passo
de outra incrível jornada.


E outro sopro de vento
na tua face recente


levará o passado,
engendrará presentes


que amanhã serão
pouco mais que história


levada pelo tempo
às margens da memória


que se renova e vive
a cada passo dado


nascido a cada sol
dentro em ti despertado.


(Robertson Frizero Barros)

Azul e amarelo - fotografia de Sérgio Freitas
Escrito por Frizero em 16:30:44 | Link permanente | Comments (2) |

Quarta-feira, 02 de Abril de 2008

A senhora Hale e os verdadeiros criminosos

Susan Glaspell

Uma das fundadoras do Playwright's Theatre, também conhecido como Provincetown Players, Susan Glaspell (1876-1948) representou uma revolução no teatro estadunidense. Entre os anos de e 1922, os Provincetown Players produziram e encenaram novos textos de dramaturgos como Eugene O'Neil e da própria Glaspell, cujos textos, até hoje encenados com interesse nos Estados Unidos da América, ganharam à época repercussão maior que as peças teatrais do próprio O'Neil, hoje tido como um dos maiores dramaturgos estadunidenses. Em seu país, onde existe uma Susan Gaspell Society, dedicada ao estudo e divulgação da obra de Glaspell, a autora é conhecida não só por sua produção para o teatro, mas também por seus contos e romances. Mas foi com um texto teatral que ela foi condecorada com um prêmio Pulitzer em 1931 - Alison's house.

Os temas das peças teatrais de Susan Glaspell giram em torno de questões regionais, sobretudo de sua Iowa natal, e também das tensões e conflitos entre homens e mulheres. Não raro, suas personagens são pessoas em busca de um sentido para suas vidas, algo que se repete em sua obra em prosa. Não raro, Susan Glaspell usava como inspiração para seus trabalhos as histórias que conhecera e investigara durante os anos em que fora jornalista do Daily News.

Foto de uma montagem de 'Bagatelas' feita em pelo grupo de teatro da Universidade de Walla Walla, Washington, em 2002 Bagatelas (Trifles - 1916) é, talvez, sua peça teatral mais divulgada, não só por conta de sua temática feminista, mas sobretudo pela maestria de composição da trama e pela profundidade a que a dramaturga chega na discussão da condição feminina em um texto relativamente curto, que encenado não deve ultrapassar meia hora de espetáculo. O sucesso do texto foi tamanho - e o resultado tão satisfatória pra Glaspell - que a autora transformou a história em um conto intitulado a jury of her peers, publicado no ano seguinte e que se tornaria um de seus textos mais conhecidos em prosa. A situação inicial de Bagatelas, livremente inspirada pelo assassinato de um certo John Hossack cuja história Glaspell cobrira como jornalista, é relativamente simples: três homens - um promotor, um delegado e um fazendeiro - chegam a uma fazenda onde, no dia anterior, ocorrera um assassinato. Duas mulheres acompanham-nos: a Sra. Peters, esposa do delegado, e a Sra. Hale, esposa do fazendeiro que foi o primeiro a tomar conhecimento do caso e está lá na condição de testemunha. Susan Glaspell usa o ambiente da peça - a cozinha desordenada da fazenda - para estabelecer as diferenças de percepção entre os sexos e, sobretudo, para expor a condição feminina e os subterfúgios usados pelas mulheres para sobreviver em um mundo de opressão: enquanto os três homens vasculham a casa em busca de provas que incriminem a esposa do fazendeiro assassinado - morto na própria cama, enforcado enquanto dormia -, as mulheres vão aos poucos revelando a si mesmas - e ao público - as razões pelas quais a Sra. Wright teria matado seu esposo.

A genialidade de Glaspell está em trazer esses temas todos por meio das ações das personagens e não de um discurso panfletário colocado em suas falas. As mulheres descobrem que a Sra. Wright tinha uma vida de opressão e violência através dos pequenos detalhes que vão coletando naquela cozinha desarrumada, aparentemente fruto do desleixo de uma dona de casa pouco cuidadosa. A Sra. Hale conhece a esposa do homem assassinado, uma mulher que um dia fora a jovem feliz que cantava no coro da igreja, e que depois do casamento vivia enclausurada em sua fazenda, isolada do mundo, alheia mesmo às tarefas comunitárias nas quais as mulheres uniam forças e eram a única forma possível de compartilhar suas experiências e sofrimento em um mundo dominado pelos homens. São os detalhes pequenos, as "bagatelas que as mulheres adoram discutir" - na fala do Sr. Hale ao desqualificar as opiniões da esposa - que darão a elas as certezas sobre a culpa da Sra. Wrigth e seus motivos. São as coisas pequenas e tão femininas - o "quilt" inacabado, a gaiola rompida e o pássaro morto, o vidro de compota e o pão por fazer - e não a lógica masculina e policialesca - com sua busca por pistas grandiosas da autoria do crime - que revelam o assassinato para o público. Mas não se trata, aqui, apenas de mostrar como as mulheres são mais detalhistas e cuidadosas que os homens. Glaspell evidencia a pouca importância que os homens davam ao universo feminino e que os tornava incapazes de perceber a verdade além das aparências. Um desprezo pelos sentimentos das mulheres que levou o Sr. Wright a sufocar a esposa - que o mataria, literalmente, dessa mesma forma - e segue impedindo muitos homens de perceber o quanto se pode crescer e aprender na convivência igualitária com as mulheres.

Escrito por Frizero em 17:50:27 | Link permanente | Comments (0) |

Domingo, 23 de Março de 2008

Em defesa da honra

'Unheard expression', do pintor norte-americano Mark Stock

Não se falaram o dia inteiro. A briga tola da noite anterior, em pleno restaurante e na frente de seus melhores amigos azedara qualquer possível reconciliação, ao menos por alguns dias. Mas a geladeira estava vazia e a véspera de feriado forçou-lhes uma aproximação para que fossem juntos ao supermercado. Ainda assim, não trocaram palavra. Com a lista de compras nas mãos, o diálogo pareceu-lhes desnecessário.


Subiam as escadas, embora o dia estivesse magnífico. Em outras ocasiões como aquela, talvez aproveitassem para fazer um lanche no caminho de volta ou mesmo estenderiam a tarde de compras com uma sessão de cinema. Mas não conseguiram encontrar espaço para combinar nada além de trancar-se em casa e guardar silêncio até os ânimos se acalmarem.


Mas havia o trabalho. Ambos eram professores e tinham um pequeno negócio em conjunto. Na segunda-feira mesmo iam iniciar uma nova turma do seu curso de História da Arte e ainda não tinham sequer combinado o que fazer. Depois de guardar as compras, já que ela chegou à casa e trancou-se no banheiro, ele resolveu começar sozinho a tarefa monótona de preparar aulas e tomar as providências iniciais para a nova turma de alunos. No escritório, escolheu alguns livros na estante e começou a folheá-los distraidamente. Ao fundo, ouvia o som do chuveiro e os ruídos distantes da rua.


De um livro sobre heráldica caiu o bilhete. Era um pedaço de papel delicado, escrita com letra caprichada de homem culto. Ele leu algumas palavras carinhosas que bastaram para despertar sua raiva armazenada desde o jantar de aniversário de casamento. Ele fechou o livro e com ele golpeou a porta do banheiro. Ela abriu assustada, uma toalha nas mãos a secar os cabelos longos, um roupão a cobrir o corpo esguio. Ele olhou sua sensualidade displicente e encheu-se ainda mais de ódio. Ela continuou olhando-o, aturdida e furiosa pela interrupção. Ele mostrou para ela o livro. A mulher corou.


Aflita, ela correu para o quarto. No parapeito da janela, um vaso austríaco. Era uma peça abominável, com uns passarinhos mal desenhados, presente da sogra que odiava com sinceridade. Quando ganhou o vaso, riu-se tanto que a mãe do esposo quase quebrou a porcelana na sua cabeça. Agora era o filho, que lhe gritava palavras de morte. Ela correu até a janela e ergueu o vaso, ameaçando-o. Ele desejou sua morte e ela fez menção de arremessar o pesado objeto. Desequilibrou-se, caiu.


Da rua, os transeuntes cercaram o corpo inerte da mulher e apontaram para ele, que olhava do alto a adúltera que seu desejo assassinara em pensamento alguns minutos antes. Mas não fora ele, enfim.


Os hílares pássaros a mataram. Ninguém acreditaria em sua inocência. Em seu coração, ele não se importava e preferia, secretamente, que assim o mundo pensasse – melhor assassino que desonrado.

Robertson Frizero Barros
Escrito por Frizero em 19:43:35 | Link permanente | Comments (1) |

Quarta-feira, 19 de Março de 2008

Me, Myself & I

Escrever sobre si mesmo não é um problema - quando se é um Montaigne...Sei que deve ser difícil manter uma coluna semanal em um jornal de grande circulação, sobretudo quando o material é algo tão pouco positivista quanto a literatura.  Mas os cronistas brasileiros - com suas boas, mas raras, exceções - parecem ter embarcado em uma triste egotrip sem volta na qual suas crônicas exercem o papel de diário de bordo.

Aqui no Rio Grande do Sul, estado que ainda se ressente de não ter jornais diários com o peso jornalístico das grandes metrópoles mundiais, um grupo pequeno de cronistas mantém-se no domínio dos espaços de publicação desse tipo de texto que é tão brasileiro, tão nosso, e que desde os áureos tempos de João do Rio e Stanislau Ponte Preta serviu-nos como registro paralelo dos acontecimentos do cotidiano, uma espécie de termômetro bem-humorado do zeitgeist tupiniquim.  Infelizmente, esses cronistas parecem não conseguir mais se desconectar de sua própria realidade.  Seus textos são quase invariavelmente narrativas desinteressantes de seus problemas existenciais ou das pequenas agruras pelas quais passam entre o quarto de dormir e a cadeira da redação do jornal. 

Há poucos dias, uma das mais famosas cronistas do estado contava no jornal de domingo sobre suas dificuldades cotidianas causadas por sua mente esquecida das coisas... Outro, ainda menos inspirado, falou de como se sentiu incomodado em um engarrafamento em Porto Alegre. Tudo sem diferenças de olhar para o que qualquer um escreveria se convocado a expor sua vida em um jornal. Decerto a experiência de um ser humano pode ser de interesse universal - e o termo crônica surgiu para se referir aos relatos de viajantes europeus mundo afora, ou fora do mundo que eles conheciam e imaginavam terminar em um abismo alí nas águas do Atlântico.  Mas mesmo esses relatos pessoais eram de importância crucial para um mundo ocidental que descobria não ser o único cadinho de vida no planeta.  O esquecimento da autora - que ela levianamente chamou de Alzheimer, uma doença muito mais terrível que sua mera desatenção das coisas ao redor - não se encaixava nisso, era apenas um olhar para o próprio umbigo.  E uma mirada boba, sem nenhuma grande sacada criativa. Nem todos são Montaigne e conseguem fazer de suas percepções cotidianas algo de real valor universal.

Resta a saudade dos tempos em que o cronista era, antes de tudo, um literato, um escritor que direcionava seus esforços criativos para o cotidiano ao invés de escrever sobre atemporalidades.  E era justamente isso que o tornava atemporal.  Os cronistas da atualidade - e há exceções louváveis, por sorte, mas que ainda estão distantes de nossos jornais - parecem espelhar, no fundo, os nossos tempos cada vez mais hedonistas e ególatras.  Mas não custa nada torcer para que eles erguessem um pouco a cabeça e olhassem para o mundo ao redor.  Talvez isso fizesse com que eles descobrissem que há coisas mais interessantes para os leitores que a vida exposta do cronista em praça pública. 
Escrito por Frizero em 08:40:36 | Link permanente | Comments (0) |