Há uma maneira de ser bom novamente. O
leitmotif do bem-sucedido romance de estréia de Khaled Hosseini,
O Caçador de Pipas (2003), bem poderia resumir os caminhos escolhidos pelos produtores de sua adaptação cinematográfica, que estréia nesses dias que antecedem o Natal nos cinemas dos Estados Unidos.
O livro, que vendeu mais de oito milhões de cópias em todo o mundo, conta de maneira magistral a história de dois meninos no Afeganistão pré-invasão russa e de como um erro cometido por um deles refletirá por toda a sua vida adulta. Amir, que ainda adolescente imigrará para os Estados Unidos com o pai, fugindo da repressão instalada em seu país em 1979, é filho de uma abastada família Pashtun, sunitas que governavam o Afeganistão antes do regime Talibã. Seu melhor amigo, filho de um serviçal de seu pai, é Hassan, um Hazara - povo xiita de origem mongol, subjugados na estrutura social afegã. Uma traição de Amir encherá sua vida do remorso que o fará retornar ao Afeganistão, já adulto, durante o regime Talibã, na esperança de refazer os erros cometidos no passado. A adaptação cinematográfica respeita o caráter sobejamente humanista do livro e, como Amir, reveste-se de cuidados para não repetir os erros de produções hollywoodianas anteriores, que tratam o estrangeiro com o olhar simplista e esteriotipado que tanto desagrada os povos neles retratados.
O diretor de
The Kite Runner, o suíço Marc Forster, já demonstrou seu talento em produções inteligentes como
De Volta à Terra do Nunca e
Mais Estranho que a Ficção. Para a aguardada versão cinematográfica de
O Caçador de Pipas, ele recusou as pressões dos diretores da
Paramount que pretendia transformar o filme em um grande
blockbuster: escalou o escocês de origem egípcia Khalid Abdalla para viver o
Amir adulto, um papel que o estúdio queria entregar para nomes famosos como Tom Cruise ou Ben Afflect; para os papéis infantis, encontrou nas escolas secundárias afegãs os dois meninos, que efetivamente pertencem às etnias das personagens e agora encantam os críticos norte-americanos como
Amir e
Hassan. Impossibilitado de rodar o filme no Afeganistão destruído pelas guerras, ele optou por encontrar locações nas proximidades, no intuito de manter a mesma ambientação original - escolheu a China, em localidades que, na película, confundem os próprios afegãos que trabalharam na produção.
Outro mérito do filme é seu caráter multicultural autêntico. Os produtores contaram com consultores diversos, que trabalharam em conjunto para tornar as referências culturais as mais fiéis possíveis. Mais que isso: a grande vitória do diretor foi rodar o filme quase inteiramente em darsi, língua falada no Afeganistão - o próprio autor, Khaled Hosseini, escreveu os diálogos em sua língua natal -, o que é algo arriscado para um filme norte-americano, destinado a um público desacostumado a assistir filmes legendados. O purismo dos produtores levou o ator principal, Khalid Abdalla, a aprender darsi em um mês de cursos de imersão em Kabul até que pudesse falar a língua como um nativo.

O filme - bem como o romance - tem como principal atrativo seu retrato de um Afeganistão que não se resume aos horrores da guerra televisionada pelos canais de notícias. Saltam aos olhos do expectador, como do leitor do livro, o cotidiano dos afegãos, as relações interpessoais, os sonhos e os problemas que tornaram aquele povo, sobretudo aos olhos do público norte-americano, mais que a imagem distorcida de vilões da guerra contra o terrorismo. Trata-se de uma aproximação com a cultura daquela parte do mundo que não se limita ao esperado: vê-se ali o muçulmano fiel, o fanático, o que usa a religião apenas como fachada para exercer o poder - como, via de regra, em todas as religiões e recantos do mundo costuma acontecer. No caso de
O Caçador de Pipas, mostra-se como o povo afegão foi vítima de uma sucessão perversa de lideranças políticas que lvou à destruição do país, que ora tenta se reerguer da catástrofe. A história do filme e do romance não é omissa em relação à guerra ou à política - mostra, isso sim, como essas dimensões mais amplas da vida humana afetam o homem comum. São problemas que estão longe de uma solução: o lançamento do filme, programado para agosto nos Estados Unidos, teve que ser adiado para dezembro para que as crianças pudessem terminar o ano letivo em Kabul e ser retiradas do Afeganistão antes de o filme chegar às telas; uma cena em particular, crucial para o filme, poderia acender a ira dos afegãos contra os meninos e a produção decidiu transferir as famílias para os Emirados Árabes Unidos, onde hoje vivem (ainda que não haja no Afeganistão uma sala de cinema sequer, o filme certamente chegará ao país pelas mãos do comércio clandestino - mesmo caminho pelo qual o livro, proibido no Irã e no Afeganistão, tornou-se um
best-seller naqueles países a partir de uma tradução
pirata para o farsi).
Contra o filme, os críticos estadunidenses apontam o mesmo problema do romance que o originou - uma certa falta de sutileza na história, algo direta e previsível, com um fechamento final cuja conveniente coincidência de vilões lembra o
Deus Ex Machina dos dramas de Eurípedes. Mas o recurso usado pelo escritor estreante não abala em nada a riqueza da história e sua mensagem: sempre há tempo para um recomeço. O sucesso do filme, cujas qualidades de produção nos permitem antever, pode indicar um novo caminho para os produtores de Hollywood, sempre tão ávidos por fórmulas de boa bilheteria.
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