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Para a maioria de nós, que vive em função das subidas e descidas do sol em torno da terra, o tempo é algo tão natural quanto a escravidão que vivemos em torno dos ponteiros do relógio. E não nos damos conta de que quase tudo o que fazemos nesta vida é mero passatempo.
Ainda bebês, deram-nos um chocalho - para os de minha geração - ou uma televisão colorida para a nossa distração, ou seja, um passatempo para aquela criaturinha ainda sem quaisquer interesses na vida além do naná e do leite materno. De colo em colo fomos conduzidos até a hora do sono e sacudidos de todas as formas para que ela chegasse mais rápido. Quando, por fim, alçamos à condição de bípedes, as atendentes de creche, as avós ou as babás assumiram a tarefa inglória de fazer-nos passar o tempo enquanto nossos pais ganhavam o pão, o leite e o achocolatado de cada dia.
E a escola? A raiz quadrada, os afluentes da margem esquerda do Rio Amazonas, o coletivo de borboletas e a geometria molecular são conteúdos pedagógicos criados pelo homem com a clara intenção de ganhar tempo e entreter as crianças enquanto não chega a idade de emergí-las no mercado de trabalho. Some-se a isso as aulas de inglês, balé, natação, piano e judô, as feiras de ciência e as festas do folclore, as apresentações artísticas de fim de ano e as gincanas escolares e o complô dos adultos em favor de ocupar as crianças torna-se inegável.
Para os anos em que os humanos têm a propensão hormonal à revolta, inventou-se o vestibular, vendido aos quatro cantos como a mais importante conquista de uma vida inteira - ao menos para os que estão passando o tempo no Ensino Médio. Que haveria de melhor para conter os impulsos revolucionários da juventude que uma grande prova única e sem segunda chamada, cujo conteúdo - ao menos em tese - é todo o conhecimento escolar adquirido ao longo de onze anos de escolaridade? A crueldade sem limites dos criadores do vestibular é incontestável, mas não há como negar sua eficácia: os que se dedicam para essa prova passam horas e horas a estudar, os que não se preparam devidamente têm o remorso e a culpa de não estarem fazendo o bastante para ajudá-los a passar o tempo. Há os que não dão a mínima para o vestibular - mas isso não deixa de ser, também, uma forma alternativa de passatempo.
Pegação, namoro, rompimento, flerte, namoro, noivado, traição, rompimento, paquera, namoro, noivado e casamento são elos de uma corrente que vamos arrastando por força da tradição humana do crescei e multiplicai-vos sem que, necessariamente, a força motriz de tudo isso seja o amor ou outro sentimento igualmente nobre: há os que se unem por interesse, por comodidade ou por covardia - e, em todos os casos, o que se quer, em verdade, é uma boa forma de passar o tempo que resta na vida. O dinheiro do cônjuge garante a folga para as compras e futilidades, a televisão a cabo com quinhentos canais igualmente tediosos. A presença de um parceiro que não se ama, apenas se tolera, é a cômoda garantia de ter alguém com quem conversar durante os intervalos do programa de televisão. E os que se juntam por covardia querem apenas dar um tempo nos preconceitos do mundo contra os solteirões incorrigíveis.
E como inventamos soluções para passar o tempo! Videogames, máquinas caça-níqueis, cigarro, chiclete, Internet, drenagem linfática, aula de cerâmica, cervejinha com os amigos, cinema-pipoca, oficina de empostação de voz, guerras, downloads de MP3, churrasco de fim-de-semana, chá-de-panela, bicicleta ergométrica, coffee break, palestra motivacional, apresentações em pps, revistas de fofoca! Quando nos damos conta, o dia foi-se embora e fica em nós a sensação de que o tempo voa e nada de útil fazemos.
Como a humanidade se pacificaria se assumisse o fato de que a grande missão do homem na face da Terra é passar o tempo! Comecemos agora essa campanha de conscientização, já que estamos aqui perdendo - ou ganhando? - tempo nesta postagem de blog que não quer ser mais que um passatempo, uma contribuição para que a humanidade atinja seu objetivo. Ao menos por alguns segundos, até o próximo movimento de teu mouse.
(Robertson Frizero Barros)
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